PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Seis providências para Bolsonaro virar um ex-Bolsonaro e sair da defensiva

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters
Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/07/2021 04h23

A CPI da Covid empurrou Bolsonaro para uma pista sem pavimentação e esburacada. Além do risco de capotamento, quem trafega numa via assim ou faz poeira ou come poeira. Correndo atrás dos acontecimentos, o capitão engole pó. Poucos presidentes exercitaram a incompetência com tanta competência. O espaço para manobras é mínimo. Mas ele ainda existe. O problema é que, para ultrapassar as dificuldades que criou, Bolsonaro teria de se comportar como ex-Bolsonaro.

Dias atrás, com a pasta da Saúde transferida para a editoria de polícia, Bolsonaro recorreu a uma filosofia de parachoque de caminhão: "Não tenho como saber tudo o que acontece nos ministérios". Caindo-lhe a ficha, perceberá que nenhuma filosofia substitui o parachoque. Até os bons governantes estão sujeitos a colisões. Mas só um péssimo governante se finge de morto diante de uma tragédia em que já desceram à sepultura mais de 527 mil cadáveres.

Vão abaixo meia dúzia de providências que Bolsonaro precisaria adotar imediatamente para virar um ex-Bolsonaro, começando a fazer poeira em vez de comê-la:

1) Retirar o cetro de líder do governo na Câmara das mãos de Ricardo Barros, o deputado do "rolo" da Covaxin. Com tantas novas escolhas erradas a fazer no centrão, não vale a pena insistir num erro antigo. Numa cleptocracia em que donos de biografias precárias continuam desfilando pelos salões do poder com o rei na barriga, como se nada tivesse sido descoberto sobre eles, reina a esculhambação.

2) Destituir da função de "fiscal de contratos" do Ministério da Saúde Regina Célia Silva Oliveira. Numa inquirição cirúrgica, o senador-delegado Alessandro Vieira moeu o cinismo mal ensaiado da depoente na CPI da Covid. Resumiu com precisão o drama: "Depois de descobrir que a compra de vacinas ficou aparentemente na mão de uma mistura de estelionatários, corruptos, ignorantes e malucos, encontramos uma fiscal de contrato que acha normal não fiscalizar nada."

3) Enviar ao olho da rua o ministro palaciano Onyx Lorenzoni e o coronel Elcio 'Supostamente' Franco, ex-número Dois da pasta da Saúde na gestão Pazuello, agora encostado num contracheque da Casa Civil. No afã de desqualificar Luis Ricardo Miranda, o servidor da Saúde que levou ao trombone as irregularidades do contrato de compra da Covaxin, a dupla brandiu como verdadeiro um documento cuja falsidade a senadora Simone Tebet demonstrou didaticamente na CPI. No meio de uma crise, só se deve dizer mentiras que possam ser comprovadas.

4) Cancelar rapidamente a compra de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin, suspensa na semana passada. No momento, o pior cego é aquele que não ouve os avisos da Procuradoria e do TCU sobre a radioatividade de um enredo em que o governo faz o papel de bobo num contrato confuso, firmado com uma empresa de má reputação, cujo epílogo é a transferência de R$ 1,6 bilhão para uma conta situada no paraíso fiscal de Singapura, em nome de uma razão social sem comprovação científica.

5) Proibir a entrada em qualquer repartição pública do cabo Luiz Paulo Dominghetti Pereira, da PM de Alfenas (MG), e do autoproclamado reverendo Amilton Gomes de Paula, da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários. Pés de cabra e picaretas não combinam com cofres, sobretudo cofres públicos.

6) Livrar-se de todos os servidores que caíram na lábia segundo a qual um cabo e um reverendo dispunham de 400 milhões de doses da AstraZeneca para vender. Não basta demitir Roberto Dias, o preposto do centrão acusado de pedir propina de US$ 1 por dose de vacina. É preciso banir da máquina pública tantos os assessores capazes de tudo como os servidores incapazes de todo.

O presidente comunicaria suas decisões numa entrevista coletiva em que pediria desculpas ao país por ter sido quem foi. Na sequência, responderia a todas as perguntas dos repórteres. Com muito respeito e compostura. A ausência de xingamentos à imprensa comprovaria que Bolsonaro, completamente fora de si, virou mesmo um ex-Bolsonaro,