PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Bolsonaro conspira contra seu próprio mandato

Alan Santos/PR
Imagem: Alan Santos/PR
Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/07/2021 18h51

A perspectiva de fracasso subiu à cabeça de Bolsonaro. O presidente conspira a favor do próprio impeachment. Atravessou a semana ameaçando a democracia, xingando autoridades de outros Poderes e desafiando a lógica.

Disse e reafirmou que não aceitará o resultado das eleições de 2022 se perder a disputa no atual sistema de urnas eletrônicas. Declarou várias vezes que, sem o voto impresso, não haverá eleições no ano que vem.

Ao perceber que o presidente da República tenta enquadrar o país na sua moldura de desespero e desequilíbrio, os outros Poderes decidiram, finalmente, reagir.

Presidente do Senado e do Congresso Nacional, o senador Rodrigo Pacheco disse que "será apontado pelo povo brasileiro e pela história como inimigo da nação" qualquer um que queira o "retrocesso ao Estado democrático de Direito." Afirmou que cabe ao Legislativo decidir se haverá ou não voto impresso.

Chamado de "imbecil" e "idiota" por Bolsonaro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, declarou que a tentativa de barrar a eleição configura "crime de responsabilidade." Pacheco e Barroso defenderam a confiabilidade das urnas atacadas por Bolsonaro.

Depois de perder a pose e as ruas, Bolsonaro perdeu o pouco que lhe restava de discurso quando a CPI da Covid migrou da investigação do negacionismo para a apuração de corrupção no Ministério da Saúde. Tornou-se um governante sem juízo e sem rumo.

Arthur Lira, presidente da Câmara, e Augusto Aras, procurador-geral da República, mantêm a disposição de blindar o mandato de Bolsonaro contra o avanço de processos por crime de responsabilidade ou por crime comum. Mas ainda não inventaram blindagem para a falta de juízo.

Onze partidos políticos, incluindo legendas que apoiam o governo, anunciaram a intenção de votar contra a proposta que prevê a impressão do voto. Parece óbvio que, juntas, as manifestações desses partidos e as reações de autoridades do Legislativo e do Judiciário soam como uma espécie de "basta" para Bolsonaro.

Mas o presidente esbarra no óbvio, tropeça no óbvio e continua flertando com a insensatez, sem desconfiar de que o óbvio é o óbvio. É como se Bolsonaro pedisse para ser impedido.