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Josias de Souza

Faltou transparência com a saúde do presidente

Jar Bolsonaro posta foto durante internação em hospital de Brasília - Reprodução/Facebook/Jair Messias Bolsonaro
Jar Bolsonaro posta foto durante internação em hospital de Brasília Imagem: Reprodução/Facebook/Jair Messias Bolsonaro
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/07/2021 18h56

Percebia-se que havia algo de errado com Bolsonaro. Ele estava incomodado há duas semanas com um soluço intermitente. Mencionou o incômodo em sua live de quinta-feira da semana passada. Voltou a se queixar numa entrevista no sábado. Indagados sobre o soluço presidencial, ministros e auxiliares minimizavam o problema. A hospitalização de Bolsonaro revelou que não era apenas um soluço.

Na segunda-feira, conversei com duas pessoas que estiveram com o presidente na semana passada e no final de semana. Enalteceram a saúde de Bolsonaro. É de ferro, disse um deles. Atribuía-se o soluço ora a um refluxo gástrico, ora a supostos efeitos de medicamentos que tomou por conta de um implante dentário que teve de fazer.

Nesta quarta-feira, em conversa com uma pessoa que acompanhou as aflições que antecederam a internação de Bolsonaro, verifiquei que se repetiu agora um fenômeno muito comum nos governos. Formou-se uma instintiva e bem-intencionada operação de acobertamento em torno do quadro de saúde de Bolsonaro.

O presidente dormia mal há vários dias. Queixava-se de dores intestinais. Lembrava que os médicos já haviam alertado para a necessidade de fazer uma nova cirurgia, para correção de uma hérnia. Na semana passada, ouviu de um ministro o conselho de se submeter a um check-up. A hora ideal para cuidar da saúde, disse o ministro ao presidente, é antes que seja necessário tratar da doença. Bolsonaro deu de ombros.

Sobreveio a internação em Brasília. Depois, a transferência para São Paulo, onde será feita a avaliação final sobre a necessidade de realização de uma cirurgia para eliminar o que foi diagnosticado como obstrução intestinal.

Houve nesse episódio um déficit de transparência. Todos têm direito à privacidade. Mas saúde de presidente da República é algo de interesse público. Agora, Bolsonaro se expõe nas redes sociais. Tenta extrair dividendos políticos do infortúnio: "Mais um desafio, consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil", escreveu no Twitter.

Espera-se que o tema seja tratado adequadamente, por meio de boletins médicos. E que Bolsonaro se recupere rapidamente.