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Josias de Souza

Carluxo usa hospitalização de Bolsonaro como oportunidade a ser aproveitada

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/07/2021 02h30

Primeiro vereador federal da história, Carlos Bolsonaro, o Carluxo, transformou a nova hospitalização do pai numa oportunidade a ser aproveitada politicamente. Relançou um espetáculo conhecido: a internação—andor. Nela, a imagem sacrossanta do doente é transportada do ambiente hospitalar para as redes sociais, concedendo aos devotos do bolsonarismo o privilégio de acompanhar o mito com suas preces.

A exemplo do que fizera em internações anteriores, o Zero Dois está ao lado do pai, agora no hospital Vila Nova Star, em São Paulo. Significa dizer que a procissão virtual deve durar até que o presidente receba alta. A julgar pelos primeiros lances, Carluxo prega para convertidos ao manejar as redes sociais do pai. Administrou um tratamento precoce que combina doses da facada de 2018 com uma gota de PT.

Na postagem que marcou a reestreia, Carluxo utilizou imagem captada no Hospital das Forças Armadas, em Brasília, antes da transferência de Bolsonaro para São Paulo. O paciente foi do leito às redes sem camisa, plugado a equipamentos que monitoravam os sinais vitais. Tinha ao seu lado o arcebispo militar, Dom Fernando Guimarães.

Fazendo-se passar pelo pai, Carluxo escreveu: "Mais um desafio, consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil. Um atentado cruel não só contra mim, mas contra a nossa democracia."

A Polícia Federal já concluiu que Adélio Bispo, o ex-filiado do PSOL que esfaqueou o então candidato Bolsonaro, agiu sozinho, não como elo de uma conspiração político-eleitoral. O criminoso foi diagnosticado pelos médicos como portador de um "transtorno delirante persistente." No português das ruas, é um maluco.

As mudanças de que fala o filho de Bolsonaro ficaram pelo caminho. O mito foi eleito como um político antissistema, anticorrupção e pró-liberalismo econômico. Hoje, percorre a conjuntura acorrentado ao sistêmico centrão, chefia uma organização familiar com fins lucrativos e dá de ombros para a agenda de reformas liberais.

As notícias fornecidas no primeiro boletim da equipe de médicos paulistas são alvissareiras. Após analisar os exames laboratoriais e de imagem, o time chefiado pelo cirurgião gástrico Antonio Luiz Macedo decidiu submeter Bolsonaro a um "tratamento clínico conservador." Ou seja: embora a cirurgia ainda não esteja descartada, os doutores tentarão resolver a obstrução intestinal do presidente sem bisturi.

Carluxo faria um bem a si mesmo se esquecesse as redes sociais enquanto estiver no hospital, dedicando 100% do seu tempo ao exercício de sua devoção pelo pai. Até porque o truque de misturar hospital com política pode não ser suficiente para ressuscitar a imagem do mito.

De acordo com a mais recente pesquisa do Datafolha, a maioria dos brasileiros enxerga Bolsonaro como incompetente (58%), desonesto (52%), pouco inteligente (57%), falso (55%), indeciso (57%), autoritário (66%) e despreparado para o exercício do cargo de presidente (62%). Os dados revelam que, fora do ambiente hospitalar, Bolsonaro é um político hemorrágico.