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Josias de Souza

Com um nó do TSE no pescoço, Bolsonaro continua brincando de corda

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/08/2021 15h29

Espelhando-se no seu ídolo Donald Trump, Bolsonaro reage ao risco de derrota eleitoral em 2022 esticando a corda. A reação do TSE às mentiras do presidente sobre o sistema eleitoral eletrônico mudou de patamar. Evoluiu das notas de repúdio para a abertura de um inquérito. Bolsonaro não se deu por achado. Com o nó da Justiça Eleitoral no pescoço, continuou brincando de corda. Levando o inquérito às últimas consequências, os ministros do TSE elevarão a estatura da Corte. Do contrário, rebaixarão ainda mais o pé-direito da democracia brasileira.

Dirigindo-se aos devotos do cercadinho do Alvorada, Bolsonaro disse que não aceitará "intimidações". Declarou que sua "briga" é com o ministro Luis Roberto Barroso, não com o TSE ou com o Supremo Tribunal Federal. Afirmou, de resto, que continuará exercendo sua liberdade de expressão. Bolsonaro finge não notar, mas comprou briga com a unanimidade dos ministros do TSE e com o grosso das togas do Supremo. Chegou a esse ponto não por atacar Barroso, mas por afrontar a democracia.

A questão não é o desejo do presidente de usufruir do direito constitucional à liberdade de expressão. O problema é a dificuldade de Bolsonaro de se exprimir com a responsabilidade que se espera de um presidente da República. Convidado a exibir as "provas" de fraude nas urnas eletrônicas, levou ao ar duas horas de mentiras. Convertido em investigado, repetiu que "não serão admitidas eleições duvidosas ano que vem." E ameaçou organizar uma manifestação na Avenida Paulista, "como último recado" aos que ousam discordar dele.

Além do inquérito eleitoral, que pode resultar, em tese, numa impugnação da candidatura de Bolsonaro à reeleição, o TSE requereu a inclusão do presidente no inquérito sobre notícias falsas, que corre no Supremo Tribunal Federal. Relator do caso, o ministro Alexandre de Moraes, que presidirá o TSE nas eleições de 2022, deve incluir Bolsonaro no rol dos investigados do processo sobre fake news.

A movimentação do Judiciário veio bem e chegou tarde. Veio bem porque abre a perspectiva, ainda que remota, de enquadramento de um presidente transgressor. Veio tarde porque Bolsonaro deveria ter sido disciplinado há um ano e meio, quando disse que exibiria provas de que o sistema eletrônico de votação é fraudulento. Alguém irá se desmoralizar ao final dos processos. Espera-se que não seja a democracia brasileira.