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Josias de Souza

Bolsonaro impresso é bem mais manso do que o valentão da versão eletrônica

Marcos Corrêa/PR
Imagem: Marcos Corrêa/PR
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/08/2021 17h04

Nas redes sociais, Bolsonaro rosna para as urnas como um cão raivoso. Sua saliva tornou-se mais espessa desde 9 de março de 2020, quando declarou, nos Estados Unidos, que exibiria "brevemente" as "provas" da "fraude eleitoral" que impediu sua vitória no primeiro turno da sucessão de 2018. Quase um ano e meio depois, ainda não vieram à luz as provas de fraude. Mas surgiu em Brasília, num documento entregue ao Tribunal Superior Eleitoral, um Bolsonaro alternativo. Impresso, o capitão revelou-se bem mais manso do que o valentão da versão eletrônica.

Convertido pelo TSE em protagonista de um inquérito sobre as mentiras que propagou sobre as urnas eletrônicas, Bolsonaro —ou o advogado que redigiu o texto em seu nome— escreveu que não questiona a segurança do processo de votação. Apenas defende o aprimoramento do sistema. "Reitera-se, não se está a atacar propriamente a segurança das urnas eletrônicas, mas, sim, a necessidade de se viabilizar uma efetiva auditagem". A ideia de que as urnas não são auditáveis é uma das tolices que o presidente difunde quando arreganha os dentes na internet.

Ao latir para as urnas em março de 2020, Bolsonaro expressou-se assim: "Minha campanha, eu acredito que, pelas provas que eu tenho em mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito no primeiro turno. Mas, no meu entender, teve fraude. E nós temos não apenas palavras, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar."

Ao abanar o rabo para o TSE na resposta tardia a uma intimação do ministro-corregedor Luís Felipe Salomão, o Bolsonaro impresso anotou: "Na realidade, é em nome da maior fiabilidade do sufrágio que há muito se tem defendido a necessidade de robustecer ainda mais o sistema eletrônico de votação com alguma medida física de auditagem imediata pelo eleitor, tão logo esse deposite o seu voto na urna e, se for o caso, mais tarde pela própria Justiça Eleitoral."

Bolsonaro expõe sua dupla personalidade num instante em que a Câmara ensaia a rejeição da proposta que prevê a criação do voto impresso. Mal comparando, o capitão passou a frequentar a controvérsia sobre o sistema eleitoral numa posição muito parecida com a de um cachorro de rua dos velhos tempos. Esse tipo de cão gosta de correr atrás dos carros. Persegue o alvo por algum tempo. Dá a impressão de que vai trucidá-lo. Ao perceber o ridículo da cena, desiste. Até que o desejo de morder pneus em movimento ressurja do nada.

No caso de Bolsonaro, a resposta por escrito enviada ao TSE ainda não havia nem chegado às manchetes quando o presidente voltou a surtar numa entrevista à rádio 96 FM, de Natal (RN). Rosnou novamente para o ministro Luís Roberto Barroso, presidente da Corte Eleitoral: "O senhor Barroso, obviamente, é pessoal a questão dele comigo. E ele não vai ganhar na canetada. Não estamos aqui brigando para dizer quem é mais homem, quem não é mais homem. É para termos a certeza de quem o povo votou, o voto vai exatamente para aquela pessoa."

Quer dizer: impresso ou eletrônico, Bolsonaro é o mesmo personagem inconfiável de sempre. Ora soa irresponsável, ora revela-se apenas mentiroso. Em qualquer hipótese, distancia-se do comportamento que se espera de um presidente da República. No mínimo, comete o crime de denunciação caluniosa. No limite, incorre em crime de responsabilidade. Resta saber quando vai passar a carrocinha.