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Josias de Souza

Bolsonaro espera por reciprocidade do Judiciário

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

10/09/2021 23h48

Equilibrando-se entre o instinto de sobrevivência e as expectativas do seu eleitorado mais radical, Bolsonaro rala para evitar que alguns dos seus seguidores nas redes sociais se tornem perseguidores.

Divulgada na quinta-feira, a carta que virou a retórica do presidente do avesso foi recebida pelos seus devotos mais fieis como uma espécie de capitulação diante do sistema, sobretudo do Supremo Tribunal Federal.

Bolsonaro e seus operadores passaram a difundir a tese segundo a qual a carta não é um recuo, mas o gesto magnânimo de um estadista, que espera obter a reciprocidade do Judiciário.

A semana deveria ter sido triunfal, pois Bolsonaro, no ataque, emergiria do 7 de Setembro com "uma fotografia para o mundo". A imagem irradiaria para a Praça dos Três Poderes a luminosidade de um presidente com musculatura para se impor. Deu tudo errado.

Não há teatralidade capaz de apagar a evidência de que o capitão chega ao final de semana com a incômoda sensação de que faz o papel de um radical inconveniente, numa peça confusa, em que o protagonista é o Michel Temer e cujo epílogo é uma carta de rendição ao Alexandre de Moraes.

O ministro Onyx Lorenzoni, espécie de faz-tudo de Bolsonaro, soou explícito nas redes sociais. Chamou o recuo do chefe de "gesto de grandeza". Segundo ele, Bolsonaro apenas "devolveu a bola para o Supremo, que vai ter que recolocar no trilho da história o trem que alguns dos seus membros fizeram descarrilar."

Numa rara concessão ao óbvio, Paulo Guedes, o czar da Economia, admitiu que Bolsonaro pode ter passado dos limites em palavras, mas não em ações.

Falando para a plateia do cercadinho, Bolsonaro não foi tão condescendente quanto Paulo Guedes. Tomado pelas palavras, o presidente ainda não se considera sujeito à condição humana. "Posso um dia errar", ele declarou. "Até o momento não errei."

Tudo leva a crer que se aplica à tão almejada pacificação que levaria o presidente a tratar dos problemas reais do país uma velha profecia do deputado Luís Eduardo Magalhães: "Não tem a menor possibilidade de dar certo".

Às voltas com inquéritos que investigam Bolsonaro e o bolsonarismo, o STF e o TSE teriam de se fingir de mortos como um centrão de togas para que a moderação do presidente tivesse alguma serventia eleitoral. O resultado seria a desmoralização.