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Josias de Souza

Em dicas para o final de semana, Barroso cita fascismo e música sobre carta

Isac Nóbrega/Presidência da República/Carlos Moura/SCO/STF
Imagem: Isac Nóbrega/Presidência da República/Carlos Moura/SCO/STF
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

11/09/2021 02h59

Como costuma fazer às sextas-feiras, o ministro Luís Roberto Barroso postou no Twitter uma tríade de dicas para os seus seguidores. Cutucou Bolsonaro, que costuma engrossar sempre que se depara com ironia mais refinada que a sua.

Para ouvir, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral recomendou uma música entoada por Waldick Soriano (1933-2008): "Paixão de um Homem", que muitos conhecem como "A Carta".

Foi uma alusão à carta-rendição que Bolsonaro terceirizou a Michel Temer para informar à nação que não teve "nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes" com o surto antidemocrático dos atos de 7 de Setembro.

Para refletir, o magistrado citou frase de um sobrevivente do Holocausto, o autor italiano Primo Levi (1919-1987): "Cada época tem o seu próprio fascismo". Foi como se Barroso desejasse vincular a retórica tresloucada de Bolsonaro a Mussolini, espécie de decano do obscurantismo político baseado no princípio segundo o qual o fuzil vale mais do que o feijão.

Para ler, Barroso indicou o livro "Minhas Histórias dos Outros". Nele, o escritor e jornalista Zuenir Ventura escreve sobre pessoas com as quais conviveu. Entre elas Genésio Ferreira da Silva, a testemunha do assassinato do protetor da floresta amazônica Chico Mendes, que ele acolheu em sua casa dos 13 aos 21 anos, depois de encontrá-lo durante a cobertura do caso, no Acre.

Não por acaso, um dos calcanhares de vidro do capitão é o desapreço pela preservação da Amazônia. Numa entrevista concedida no alvorecer da gestão Bolsonaro, o então ministro antiambiental Ricardo Salles declarou que Chico Mendes não tinha a menor importância.

Salles deixou o governo pela porta dos fundos depois de ter sido pendurado nas manchetes de ponta-cabeça como protagonista de um inquérito em que foi acusado de proteger madeireiros num esquema de exportação ilegal de toras para os Estados Unidos. Ironicamente, a investigação foi aberta por Alexandre de Moraes, o "canalha" do Supremo Tribunal Federal.

De autoria da dupla Milionário e José Rico, a música que Barroso borrifou no Twitter contém uma estrofe emblemática. Os versos vão reproduzidos abaixo:

Amigo, eu queria estar presente
Para ver o que ela sente
Quando alguém fala em meu nome
Eu não sei se ela me ama
Eu só sei que ela maltrata
O coração de um pobre homem

Na véspera, Bolsonaro manifestara em sua live semanal das quintas-feiras a intenção de dialogar com seus desafetos, inclusive com Barroso, "ainda que hoje ele deu um cacete lá em mim." O presidente se referia a um discurso que o magistrado havia proferido no TSE, na manhã de quinta, para rebater os ataques infundados do presidente às urnas eletrônicas.

"Todas as pessoas de bem sabem que não houve fraude e quem é o farsante nessa história", dissera Barroso. "Quando fracasso bate à porta, é preciso encontrar culpados." À sua maneira, Bolsonaro ironizou o anúncio de Barroso sobre a criação de uma comissão para aperfeiçoar a transparência e segurança do sistema eleitoral eletrônico.

"Se anuncia que está anunciando novas medidas protetivas por ocasião das urnas é porque elas têm brecha", afirmou o presidente na live. "É porque, Barroso, elas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Ministro Barroso, entendeu? As urnas são penetráveis, as pessoas podem penetrar nelas."

Na analogia insinuada nos versos da música imortalizada pela voz de Waldick Soriano, Barroso se escandalizaria se pudesse "estar presente" para testemunhar os instantes em que Bolsonaro menciona o seu nome na intimidade do Alvorada. O ministro parece não ignorar que sua aversão ao voto impresso aguça os maus bofes do presidente, inspirando expressões de calão rasteiro. O presidente diz coisas que, se fossem expostas na vitrine, maltratariam "o coração de um pobre homem."