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Josias de Souza

CPI viveu cena típica de birosca de má reputação

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/09/2021 19h33

O Congresso Nacional é uma coisa, um botequim de quinta categoria é outra coisa. Num ambiente, a praxe é que os conflitos sejam solucionados por meio do diálogo. Noutro, as desavenças podem terminar em pancadaria.

Pois nesta quinta-feira (23), a CPI da Covid viveu num ambiente do Senado, Casa de vetustas criaturas, uma cena típica de uma birosca de má reputação.

O senador catarinense Jorginho, da bancada governista, interrompeu o colega alagoano Renan Calheiros, relator da CPI, para defender Bolsonaro. Renan não gostou. Armou-se um barraco.

A CPI ouvia o depoimento de Danilo Trento, diretor da Precisa Medicamentos. De repente, o hábito de tratar os contrários por "excelência" e "nobre colega" foi para as cucuias.

Vai pros quintos, disse Jorginho, como se estivesse com a barriga encostada no balcão de um boteco.

Vai você com seu presidente e Luciano Hang, respondeu Renan, como se os seus cotovelos estivessem recostados não sobre a bancada da CPI, mas sobre uma mesa de ferro —dessas que têm os pés em formato de 'X' e o tampo apinhado de garrafas de cerveja vazias.

Amigo de Hang, empresário bolsonarista convocado pela CPI, Jorginho elevou o tom.

Vai lavar a boca para falar do Luciano.

Vai lavar a tua, vagabundo.

A cena foi transmitida ao vivo pelos portais de internet pela TV Senado e por emissoras de TV por assinatura.

Vagabundo é você, ladrão, picareta, reagiu Jorginho.

Ladrão, picareta é você, devolveu Renan, partindo para cima do colega como se esgrimisse uma garrafa de cerveja que acabara de quebrar na quina da mesa metafórica do boteco parlamentar.

Um bêbado que testemunhasse a troca de insultos teria dificuldades para distinguir quem é quem.

A semana não produziu boas imagens para o Brasil. Em Nova York, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mostrou o dedo médio em riste para manifestantes.

Em Brasília, não fosse pela intervenção da turma do deixa-disso, ladrão e vagabundo —ou vice-versa— teriam trocado socos sem dar tempo para que as crianças fossem retiradas da frente da TV.

Alguém já disse que o Brasil é a melhor piada já contada por um português. No momento, é preciso procurar muito para achar graça.