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Josias de Souza

Depoimento de diretor da Prevent Senior à CPI magnificou suspeitas macabras

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/09/2021 09h08

Em vez de dirimir dúvidas, o depoimento à CPI da Covid de Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent Senior, magnificou as suspeitas que transformam essa operadora de saúde em estrela de um capítulo macabro da história da pandemia no Brasil. Ficaram no ar coisas impensáveis, inacreditáveis, inconcebíveis e inaceitáveis.

É impensável a ideia de que uma organização de saúde tenha usado pacientes idosos num experimento pseudocientífico para testar remédios de eficácia incerta.

É inacreditável a percepção de que médicos submeteram os pacientes a esses medicamentos mesmo depois que a ineficácia no tratamento da covid foi comprovada.

É inconcebível a admissão de que prontuários de mortos por complicações da covid foram adulterados para maquiar estatísticas.

É inaceitável a demonstração de que o presidente da República atuou como garoto-propaganda de uma empresa investigada sob a suspeita de camuflar cadáveres a pretexto de vender como sucesso o desastre do do kit cloroquina.

Quando é confrontado com as estatísticas macabras da pandemia, que já matou quase 600 mil brasileiros, Bolsonaro costuma dizer que lamenta todas as mortes. Mas todos vão morrer um dia, ele sempre acrescenta.

De fato, há coisas na vida que são imutáveis. Ninguém desconhece que o nascimento e a morte são dados da realidade para os quais não há cura. Mas Bolsonaro ignora o essencial: a graça da existência está em desfrutar desse intervalo entre a maternidade e o túmulo.

Na travessia entre o útero e a cova, percalços como uma pandemia servem sobretudo para nos lembrar da essência da vida. É verdade que todos nascem sem saber. É certo que a maioria morre sem querer. Mas ninguém pode esquecer de viver. Tudo o que se pareça com um estorvo à vida deve ser denunciado.

Nesse instante da vida brasileira nada é mais incômodo do que a percepção de que há no Planalto um presidente que atrapalha o esforço nacional para se livrar de um vírus que percorre a atmosfera à procura de encrenca, jurando de morte pessoas que se imaginam cheias de vida.

Num instante em que muitos começavam a esquecer a aliança de Bolsonaro com o vírus, o presidente foi à ONU defender o kit cloroquina. É contra esse pano de fundo que a Prevent Senior e seus vínculos com o poder ganham o palco. O caso pede elucidação e punição. Coisa para já, não para a história.