PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Pior que os erros é a forma como Queiroga se comporta depois de cometê-los

Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/09/2021 09h42

Seis dias depois de Marcelo Queiroga ter apavorado o país, recomendando às mães que não vacinassem seus filhos contra Covid, o Ministério da Saúde divulgou uma nota para pedir às famílias brasileiras que esqueçam o que o ministro declarou. Está liberada novamente a vacinação dos adolescentes com mais de 12 anos. Na prática, o governo pede aos brasileiros que se finjam de bobos para evitar a desmoralização do doutor Queiroga.

A decisão de suspender a vacinação da rapaziada, ecoada numa live em que Queiroga apareceu ao lado de Bolsonaro na quinta-feira da semana passada, revelou-se um desastre instantâneo. A Anvisa reafirmou que a Pfizer é segura para adolescentes. Onze em cada dez especialistas criticaram o ministro da Saúde. Governadores e prefeitos ignoraram Queiroga.

Quando estados e municípios já haviam desligado Brasília da tomada, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, legalizou num despacho o que já havia se consolidado como um surto de desobediência civil. Desautorizado pela Anvisa, atacado pelos técnicos, desprezado pelos gestores estaduais e municipais e enquadrado pelo Supremo, Queiroga se faz de morto num quarto de hotel de Nova York, onde cumpre sua quarentena de infectado.

Queiroga deve ao país um pedido de desculpas. Deve também aos brasileiros um pedido de demissão. Mas um ministro que se diminui mostrando o dedo médio para os críticos não parece capaz de grandes gestos. Infectado pelo bolsovírus, Queiroga é incapaz de notar que o que destrói uma pessoa não são os seus erros, mas a forma como ela se comporta depois de cometê-los.