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Josias de Souza

Bolsonaro faz do Alvorada sua plataforma de tiro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/09/2021 11h29

Estranha época a atual, em que um presidente capaz de tudo revela-se incapaz de todo sempre que precisa optar entre a insanidade e o interesse nacional. Na sua penúltima live, Bolsonaro se disse contra vacinar adolescentes —"Se começa a morrer a garotada vai estourar no meu colo"—, avacalhou as vacinas no atacado e a CoronaVac no varejo —"Quem tem mais chances de transmitir o vírus? Eu, atualmente sem vacina, ou o Queiroga vacinado?"—, enalteceu o kit cloroquina —"Defendo a autonomia do médico"— e desqualificou a vigilância sanitária —"Infelizmente a Anvisa recomendou que eu ficasse de quarentena."

Bolsonaro, como se sabe, carrega suas virtudes no coldre. Presidentes convencionais às vezes têm dificuldades para encontrar soluções para os problemas. Bolsonaro não consegue enxergar nem os problemas. Na falta de respostas, distribui rajadas. Converteu a biblioteca do Alvorada numa plataforma de tiro. Todas as noites de quinta-feira, Bolsonaro aciona o gatilho. Cada nova live do presidente é uma carga de artilharia contra o interesse público. O Brasil está sob ataque de quem deveria defendê-lo. Bolsonaro transformou o país numa zona de guerra.

A certa altura, o capitão levou o Supremo à alça de mira. Esquecendo-se do armistício previsto na carta que Michel Temer escreveu e que ele assinou, Bolsonaro se queixou da interferência da Suprema Corte. "Falta um comandante que pudesse fazer valer a sua autoridade. Não posso valer minha autoridade na pandemia, quem decide são governadores e prefeitos."

Bolsonaro nunca levou o vírus a sério. Quando os mortos eram contados em mil, falou em "gripezinha". Quando os cadáveres somavam 5 mil, queixou-se da "histeria". Quando lhe perguntaram sobre os 10 mil corpos, disse "não sou coveiro". Na marca de 20 mil sepulturas, perguntou: "E daí?". Aos 30 mil mortos, declarou que "todo mundo morre um dia". Com quase 600 mil cadáveres, subiu à tribuna da ONU para receitar cloroquina. Imagine-se quantas covas a mais teriam que ser abertas se o Supremo não tivesse colocado uma coleira nos seus impulsos anticientíficos de Bolsonaro!