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Josias de Souza

Bolsonaro trata Lula como assombração e Guedes acha que o brasileiro é bobo

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/09/2021 19h26

Bolsonaro converteu o aniversário de mil dias do seu governo num evento de campanha. Ao discursar no Planalto, cometeu algo muito parecido com um sincericídio. Referindo-se à inflação, disse que não é por "maldade" que a gasolina e o dólar sobem. E admitiu que o pior pode estar por vir: "Não há nada tão ruim que não possa piorar", disse. Tratou de zelar pela polarização, grudando no petismo uma imagem de boi da cara preta.

Falando para investidores na Câmara de Comércio Internacional (ICC, na sigla em inglês), o ministro Paulo Guedes, da Economia, soou como se o novo mandato do chefe fosse fava contada. A insegurança econômica, a ruína fiscal e o desemprego indicam que o Posto Ipiranga tem mais lábia do que combustível para oferecer. Com o tanque vazio, Guedes encostou na sua lojinha de conveniências uma tenda de quiromancia.

O plano para os próximos dez anos, disse o ministro, é "continuar com as privatizações. Petrobras, Banco do Brasil, todo mundo entrando na fila..." Incapaz de melhorar o passado de insucessos, Paulo Guedes ladrilha com pedrinhas de brilhante o futuro. Natural. No futuro cabe tudo. O futuro não pode ser cobrado ou conferido. O ministro supõe que o Brasil é um país de bobos. Alguém vai acabar perguntando: Que foi feito do primeiro semestre de 2021, futuro do segundo semestre de 2020? Que fim levou 2020 inteiro, futuro de 2019?

Reprovado por 53% dos eleitores, Bolsonaro observa o retrovisor. Mas enxerga apenas o passado dos governos petistas. Usa-o para instilar medo no futuro. Sem mencionar o nome de Lula, sustenta que o Brasil pode virar uma Venezuela caso o PT volte ao poder.

Bolsonaro é alvo de inquéritos no STF e no TSE. Está prestes a ser acusado pela CPI da Covid de praticar crimes em série na pandemia. Insinua que, se ficar "fora de combate", o retorno de Lula, favorito nas pesquisas, é "previsível". E "não serão mais 14 anos" de PT, disse ele, "serão pelo menos 50" anos.

O discurso político de Bolsonaro passa por um processo de infantilização. Há método nessa estratégia. Como nas velhas cantigas de ninar entoadas para fazer criancinhas dormir incutindo-lhes o terror, Bolsonaro injeta na conjuntura o medo de que uma assombração de "esquerda" pode ressurgir a qualquer momento para pegar os eleitores que têm medo de careta.

O problema é que o antipetismo de 2018 terá em 2022 a companhia do antibolsonarismo. E o eleitor brasileiro, mais crescidinho, talvez já não se anime a trocar um boi da cara preta por outro.