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Josias de Souza

Em tempos de inteligência artificial, Bolsonaro exercita ignorância natural

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

11/10/2021 17h55

Em sua recente visita a Nova York, Bolsonaro miou como um gatinho diante das restrições impostas pela prefeitura local aos sem-vacina. Impedido de entrar nos restaurantes, mastigou em pé, na calçada, a pizza que o Tinhoso amassou. No último final de semana, o mesmo Bolsonaro, em viagem ao Guarujá, rugiu como um tigre ao saber que não poderia assistir ao jogo entre Santos e Grêmio.

"Me falaram que tem que estar vacinado. Por que isso?. Eu tenho mais anticorpos do que quem tomou a vacina. Por que cartão, por que passaporte da vacina?"

Bolsonaro menosprezou novamente o uso de máscaras e tratou vacinas aprovadas pela Anvisa como poções "experimentais". Fez isso no domingo, um dia em que foram contabilizadas 167 mortes por covid em 24 horas, reduzindo a média móvel de mortos em sete dias para 437. Essa foi a menor marca desde 13 de novembro de 2020.

A quantidade de cadáveres recua na proporção direta do avanço tardio da vacinação. Tudo muda na pandemia, exceto as obsessões de Bolsonaro.

Em dezembro do ano passado, graças ao comportamento anticientífico do presidente, judicializou-se a vacina. Em julgamento que consumiu duas tardes, o plenário do Supremo Tribunal Federal proclamou o óbvio: num cenário de pandemia, o poder público pode impor sanções a pessoas que não quiserem se vacinar.

Ninguém será arrastado na marra até uma seringa. Mas é lícito ao estado impor sanções aos libertários, impedindo-os de frequentar escolas, de embarcar em transportes públicos ou de ingressar em estádios de futebol.

A obrigatoriedade de vacinas essenciais está presente na legislação brasileira desde 1975. No ano passado, a tradição de 45 anos foi reafirmada numa lei sobre Covid. Leva o número 13.979. Foi sancionada por Bolsonaro em 6 de fevereiro. Prevê no artigo 3º que, para enfrentar emergência internacional de saúde pública, as autoridades podem adotar medidas excepcionais. Entre elas a vacinação "compulsória."

Não é que Bolsonaro desrespeita a legislação. A questão é que ele se insurge até contra lei que leva a sua assinatura. Numa época em que o mundo se espanta com os avanços da inteligência artificial, o Brasil tem de lidar com a ignorância natural do seu presidente.