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Josias de Souza

Bolsonaro deveria privatizar a si mesmo, renunciando ao seu mandato inútil

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/10/2021 18h33

No Brasil, a principal forma de governo é a ruim. O governo Bolsonaro é muito pior. A excentricidade da administração atual é a incompetência acéfala. De quem é a culpa? Eis a pergunta que o capitão faz a si mesmo. "...Aumentou a gasolina, culpa do Bolsonaro", lamuriou-se. "Já tenho vontade de privatizar a Petrobras." A ideia não é ruim. Mas demoraria a ser concretizada. Há uma solução mais rápida. Bancado pelo déficit público desde os 18 anos, quando entrou para o Exército, Bolsonaro pode privatizar a si mesmo, renunciando ao seu mandato inservível.

Na Petrobras, Bolsonaro revela-se um personagem bipolar. Num instante, é capaz de tudo. Noutro, é incapaz de todo. Em fevereiro, enxotou do comando da estatal o economista Roberto Castelo Branco, apadrinhado de Paulo Guedes. Entregou a estatal ao general Joaquim Silva e Luna, a quem incumbiu de anestesiar os reajustes dos combustíveis. Os mercados elevaram o câmbio. E as ações da Petrobras perderam valor.

Decorridos oito meses, os combustíveis continuam subindo, puxados pelo dólar e pela cotação do óleo no exterior. Dias atrás, discursando na celebração dos mil dias de governo, Bolsonaro declarou que não é por "maldade" que o dólar e os combustíveis ficam mais caros. Revelou que discutia com o Ministério de Minas e Energia formas de baratear a gasolina.

"Não há nada tão ruim que não possa piorar", declarou, provocando novo tremelique nos mercados. O general Silva e Luna teve de correr à boca do palco para esclarecer que nada mudou na política de preços da estatal. Bolsonaro correu ao cercadinho do Alvorada para reconhecer que também está sujeito à condição humana: "Não faço milagre".

Todos sabem que Bolsonaro é avesso às privatizações. Jamais considerou a hipótese de levar a Petrobras ao martelo. A cenografia atual deixa o capitão em situação parecida com a do animal de uma anedota da década de 60.

Trata-se da piada do português que se tornou o principal credor de um circo. O circo faliu. Com o portuga em seu encalço, o dono ficou sem alternativa: "Não tenho dinheiro, mas pode levar o leão".

Decidido a passar o bicho nos cobres, o luso enxergou na juba do animal um traço do desleixo dos tratadores. Antes de vendê-lo, achou que deveria melhorar-lhe a aparência. Passou a máquina zero na cabeleira do leão que, sem juba, virou um cachorro amarelo.

No esforço que empreende para provar-se inocente no enredo de perversões em que se converteu o seu governo, Bolsonaro como que aplaina a própria juba. Lançando mão dos melhores estratagemas para atingir os piores subterfúgios, o pseudopresidente converte-se num insignificante cachorro amarelo.

No tempo em que Brasília ainda tentava fazer sentido, as coisas pareciam mais nítidas. No regime presidencialista, o rosto do presidente é a cara da crise. A imagem de Bolsonaro aparece para o brasileiro quando vai à mercearia, quando paga a conta de luz, quando enche o tanque do carro, quando sobra mês no fim do salário.

Bolsonaro, naturalmente, não tem nada a ver com coisa nenhuma. Ele não consegue enxergar a imagem de um culpado no espelho. Deveria considerar a sério a hipótese de sair de fininho. Ninguém reconheceria o semblante do ex-leão escondido atrás da fisionomia de um cachorro amarelo.