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Josias de Souza

Trombada com o PT faz parte do projeto de Ciro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/10/2021 09h10

Pode-se criticar Ciro Gomes por muita coisa, exceto por falta de clareza. Num instante em que todos se perguntam onde fica a terceira via, o presidenciável do PDT percorre uma avenida própria, na contramão do PT.

Durante duas décadas, Ciro disputou o Planalto três vezes, mantendo com o petismo uma relação de amor e ódio. Agora, assessorado por João Santana, ex-marqueteiro de Lula e Dilma, Ciro se convenceu de que o êxito de sua campanha passa por uma trombada com o PT.

Até fevereiro, Ciro trabalhava com a hipótese de que Bolsonaro iria ao segundo turno de 2022 como candidato favorito a fazer do adversário o próximo presidente da República. Declarou o seguinte na época: "Quem for contra o Bolsonaro no segundo turno tem a tendência de ganhar a eleição. O menos capaz disso é o PT. Por isso, a minha tarefa é necessariamente derrotar o PT no primeiro turno."

Em maio, Ciro alterou sua equação. Passou a trabalhar com a hipótese de que, sob os efeitos da pandemia, a candidatura de Bolsonaro vai derreter, abrindo espaço para que um outro candidato dispute o segundo round contra Lula. Tratou de apimentar as referências ao morubixaba do PT. "Eu vou pra cima dele", avisou Ciro, referindo-se a Lula como "o maior corruptor da história brasileira."

É nesse contexto que estão inseridas as mais recentes críticas de Ciro à proximidade de Lula com personagens como Renan Calheiros e Eunício Oliveira, a insinuação de que o pajé do PT favoreceu o impeachment da sua "gerentona" e troca de farpas com Dilma.

Muitos consideram arriscado o movimento de Ciro. Mas o candidato não opera no escuro. Calibra os gestos por meio de pesquisas qualitativas. É como se fizesse um aceno para o eleitorado que votou em Bolsonaro para evitar a volta do PT e agora foge dos dois. Para quem tem pouco a perder, o risco pode não interessar terceira, mas é a única via para a recompensa eleitoral.