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Josias de Souza

Pauta do Congresso se distancia da fila do osso

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/10/2021 03h21

O Congresso Nacional deveria criar um indicador novo: o INFO, Índice de Necessidades da Fila do Osso. O instrumento serviria para aferir o grau de sintonia entre a pauta do Legislativo e as reais necessidades do brasileiro. Neste mês de outubro, o governo paga a última parcela do auxílio emergencial na sua versão mais mixuruca —mínimo de R$ 150 e máximo de R$ 375. E o bloco partidário que apoia Bolsonaro no Legislativo ainda não aprovou o Auxílio Brasil, o Bolsa Família rebatizado e anabolizado. Arthur Lira, o réu que preside a Câmara, prefere desperdiçar tempo e energia tentando aprovar uma emenda constitucional tramada para avacalhar a autonomia do Ministério Público.

Pela segunda semana consecutiva, a Câmara teve que adiar a votação dessa proposta que politiza o Conselho Nacional do Ministério Público. Lira ainda não conseguiu reunir os 308 votos necessários para mexer no texto da Constituição. Mas ele não desiste. Avisou que o tema retornará a pauta na próxima terça-feira.

Enquanto isso, sem dispor do novo Bolsa Família e sem saber de onde retirar dinheiro, o governo rabisca em cima do joelho um remendo orçamentário capaz de prorrogar o auxílio emergencial. Hoje, o benefício chega a 25 milhões de brasileiros. Cogita-se renová-lo apenas para as 14,6 milhões de famílias que já recebem o Bolsa Família.

Se fosse criado, o INFO (Índice de Necessidades da Fila do Osso) indicaria que a pauta de Arthur Lira não orna com as necessidades do brasileiro que rala para levar alimento à boca.

Num instante, o chefão da Câmara esgrime o projeto que modifica a cobrança de ICMS, tão eficaz no controle do preço dos combustíveis quanto a cloroquina no tratamento da Covid. Noutro momento, Lira ameaça procuradores e promotores com a politização do seu conselho e a submissão da corregedoria do Ministério Público aos interesses dos investigados do Congresso.

A versão vitaminada do Bolsa Família ainda não saiu. Mas avançam no Legislativo propostas corporativas que, tomadas em conjunto, ganham a aparência de uma espécie de Bolsa Picaretagem.

O Congresso já passou a sujo a Lei da Ficha Limpa e já desfigurou a Lei da Improbidade Administrativa. Depois da paulada no Ministério Público, aguarda na fila a proposta que restringe as prisões de parlamentares e dificulta batidas policiais nos seus endereços.

É como se os congressistas, num movimento suprapartidário que envolve de petistas a bolsonaristas, cutucassem os brasileiros da fila do osso com o pé para ver se eles mordem.