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Josias de Souza

Planalto virou centro terapêutico para tratar o presidente de suas loucuras

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/10/2021 03h23

Bolsonaro trava com a Presidência da República um relacionamento patológico. Os palácios de Brasília tornaram-se espécies de centros terapêuticos para tratar o presidente de suas loucuras. No Planalto, o capitão age como maníaco. "Não queiram essa cadeira, que isso aqui tem kriptonita. Brocha o Super-Homem, que dirá eu!" No Alvorada, ele é depressivo. "Quantas vezes eu choro no banheiro em casa? Minha esposa nunca viu."

No cercadinho, diante dos devotos, alguma coisa sobe à cabeça de Bolsonaro. "Sou imorrível, imbrochável e também sou incomível." Retratado no relatório final da CPI da Covid como um criminoso serial, o presidente adotou a tática do avestruz, enfiando a cabeça na sua presunção de superioridade.

"Sabia que eu fui indiciado hoje por homicídio? Alguém está sabendo aí?", indagou o mito, entre risos. "A CPI me indiciou por homicídio. O Renan Calheiros me indiciou por homicídio. Onze crimes. O Renan me chama de homicida. Um bandido daquele. Bandido é elogio para ele!".

A propensão para a teatralidade faz de Bolsonaro um ator paradoxal. No culto evangélico da noite de quinta-feira, envergou o figurino do chorão humildezinho. No final da tarde de sexta, retomou o papel do capitão fortão.

Em vez de derramar lágrimas sob o chuveiro, Bolsonaro teria um prazeroso encontro com o travesseiro. "O Renan está achando que eu não vou dormir porque está me chamando de homicida, está de sacanagem."

Desconstruir Renan Calheiros é fácil. O relator da CPI é um colecionador de inquéritos criminais. Mais difícil para Bolsonaro é reconstruir a si mesmo. Redigido sob o assessoramento de uma comissão de juristas notáveis, o relatório final da CPI será lapidado durante o final de semana.

A partir de quarta-feira, quando for aprovado pela maioria dos membros da comissão, o texto deixará de ser um documento de Renan. Será o resultado de uma investigação parlamentar que recheada de provas que Bolsonaro produziu contra si mesmo durante a pandemia da "gripezinha".

Numa época em que o mundo aprende a lidar com a inteligência artificial, Bolsonaro exercitou sua ignorância natural. Os mais de 600 mil cadáveres da Covid perturbam o presidente. A ciência o irrita.

Graças à pressão social canalizada pela CPI, o brasileiro celebra os resultados benfazejos de uma vacinação tardia. Mas Bolsonaro continua imerso na ficção científica da cloroquina. Envergonhou o país defendendo o seu tratamento precoce na vitrine planetária da ONU.

Espremido entre a realidade e a ficção, Bolsonaro não precisou de um Lex Luthor para perder os superpoderes que imaginava ter. Virou a kriptonita de si mesmo. Sofre os efeitos das radiações emanadas dos seus desatinos. Passou a ser associado a outra tríade letal: irresponsável, inconfiável e inservível.

Quando a Presidência perde força, há uma tendência natural à fragmentação do governo. Se o enfraquecimento é intenso, o próprio conceito de autoridade se debilita. O país passa a desconfiar da autoridade.

Segundo o Datafolha, 53% dos brasileiros desaprovam o presidente. Nada menos que 59% dos eleitores declaram que não votariam de jeito nenhum em Bolsonaro. Trata-se de uma aversão inédita.

Com a ficha suja lavada na lavanderia do Supremo Tribunal Federal, Lula arrasta pela conjuntura as bolas de ferro do mensalão e do petrolão. A despeito de todo o passado que tem pela frente, o rival petista de Bolsonaro é rejeitado por 38% do eleitorado.

Submetido a uma confluência perturbadora de crises —política, econômica e social—, o inquilino do Planalto assiste a uma pulverização do poder presidencial. Adotada por Bolsonaro desde a posse, a política do tranco vai perdendo gradativamente o prazo de validade.

Com dificuldades para manter a pose de político antissistema, sobretudo depois que se rendeu ao centrão, Bolsonaro passou a representar uma ameaça real à democracia. Ao fabricar uma crise com o Judiciário, isolou-se. Virou estrela de inquéritos no Supremo e no Tribunal Superior Eleitoral.

Viu-se compelido a recuar, humilhando-se como signatário de uma carta-armistício com a caligrafia precária de Michel Temer. O relatório da CPI da Covid transformará Bolsonaro num refém da cumplicidade de Augusto Aras, seu procurador-geral de estimação, e de Arthur Lira, o réu que mantém fechado na Presidência da Câmara o gavetão com mais de 130 pedidos de impeachment pendentes de análise.

Com dificuldades para colocar em pé o seu Auxílio Brasil, versão anabolizada do Bolsa Família, Bolsonaro vai à campanha de 2022 embalado pelo pior tipo de ilusão que pode acometer um presidente. A ilusão de que preside.

A blindagem de Aras e Lira mantem em funcionamento a manicômiocracia. Mas Bolsonaro convive com o risco de receber alta dos eleitores.