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Josias de Souza

Rugido de Renan facilita o miado de Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/10/2021 09h18

Não é que falte material à CPI da Covid para chegar a conclusões sólidas. A questão é que o relator Renan Calheiros usa elementos colecionados durante a investigação parlamentar para tirar suas próprias confusões. No início do mês, Renan disse: "Não vamos falar grosso na investigação e miar no relatório". Alguns dos rugidos que o senador levou ao seu relatório favorecem a estratégia de Bolsonaro de miar como vítima de perseguição política.

Renan confundiu pose com densidade ao incluir no relatório final indiciamentos cuja sustentação tem uma profundidade que pode ser atravessada por uma formiga com água pelas canelas. Alguns senadores se surpreenderam, por exemplo, com a inclusão de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, os filhos do presidente, no rol de encrencados no documento de Renan. A CPI miou para os três na fase dos depoimentos, abstendo-se de convocá-los. O rugido soou desconexo.

Renan confundiu teimosia com tenacidade ao ignorar os sinais de contrariedade emitidos por membros do grupo majoritário da CPI, incomodados com o excesso de adjetivação e de politização. Nem o presidente da comissão, Omar Aziz, digeriu a decisão de imputar a Bolsonaro o crime de genocídio contra populações indígenas.

Com a experiência técnica de delegado, o senador Alessandro Vieira produziu um relatório paralelo, bem mais enxuto. Renan acusou Bolsonaro da prática de 11 crimes. No texto alternativo, o presidente é associado a sete crimes. Renan indiciou seis dezenas de pessoas. Alessandro, menos de duas dezenas.

Quem compara os dois textos fica com a impressão de que Renan mira em tantos alvos que acaba perdendo a pontaria. O adiamento da votação do relatório para terça-feira da semana que vem oferece ao relator a possibilidade de buscar a unidade, demonstrando que não confunde a coragem de um tigre com a estupidez humana.