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Josias de Souza

Fome intima Bolsonaro a renovar auxílio emergencial na base do improviso

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/10/2021 09h12

Em qualquer pedaço do mapa, pessoas recolhendo alimentos no lixo é uma indignidade inaceitável. Num país como o Brasil, campeão mundial na produção de grãos e de carnes, a cena filmada defronte de um supermercado de Fortaleza é um escárnio inacreditável. O flagrante de fome foi registrado num bairro chique da capital cearense, onde muitos moradores fazem regime. O garimpo de comida na caçamba do caminhão é uma variante do mesmo flagelo que leva brasileiros à fila do osso.

Não é apenas por falta de dinheiro que o brasileiro passa fome. Num país em que o orçamento secreto que compra a fidelidade do centrão a Bolsonaro soma R$ 17 bilhões e as isenções tributárias incluídas no Orçamento de 2022 chegam a R$ 371 bilhões, faltam também vergonha na cara e prioridade.

Neste mês de outubro, o governo paga a última parcela do auxílio emergencial na sua versão mais mixuruca —mínimo de R$ 150 e máximo de R$ 375. E o bloco partidário que apoia Bolsonaro no Legislativo ainda não aprovou o Auxílio Brasil, o Bolsa Família rebatizado e anabolizado. Sem alternativa, o governo rabisca em cima da perna um remendo capaz de prorrogar o auxílio emergencial. Hoje, o benefício chega a 25 milhões de brasileiros. Cogita-se renová-lo apenas para as 14,6 milhões de famílias que já recebem o Bolsa Família. O que é ruim tende a ficar pior.

Na Câmara, uma comissão especial tenta retirar do limbo a proposta que pedala as dívidas judiciais, acomodando os precatórios num andar acima do teto de gastos. Coisa de um governo que trata a emergência social na base da gambiarra.

Além de amargar o improviso governamental, os famintos lidam com um fenômeno maior do que a sua fome: a ganância. Os Procons do Distrito Federal, do Paraná e de Santa Catarina divulgaram recomendações para que ossos e carcaças de bois, porcos e aves sejam doados, não vendidos.

No DF, o osso vem sendo comercializado a R$ 5 o quilo. Nos Estados do Sul, a mercadoria sai por R$ 4. A infâmia não tem limites.