PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Novo Bolsa Família vira festa na laje, sobre o teto

Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/10/2021 18h41

Com dificuldades para distinguir a poltrona de presidente de um palanque, Bolsonaro vive uma situação do tipo Dr. Jekyll e Mr. Hyde —médico e monstro—, com o candidato aproveitando-se de distrações do presidente para ocupar o seu corpo e usar o governo eleitoralmente.

No lance mais recente, Bolsonaro interrompeu a discussão sobre a prorrogação do auxílio emergencial para antecipar o lançamento do novo Bolsa Família, o Auxílio Brasil. Transformou o que deveria ser um programa social permanente em gambiarra eleitoral temporária.

Esboçada em cima da perna, a novidade seria anunciada numa cerimônia no Planalto, às 17h. Convocado de surpresa, o evento foi cancelado de supetão. Mas auxiliares do presidente receiam que o candidato não tenha desistido dos seus planos.

Hoje, o Bolsa Família garante benefício médio de R$ 189 a 14,6 milhões de famílias. Paulo Guedes havia topado pagar R$ 300 a 17 milhões de famílias. Bolsonaro ordenou que o valor do Auxílio Brasil seja de R$ 400.

Para esticar a cifra, o presidente-candidato encolheu o ministro da Economia, já bem pequenininho. Guedes jurava que o teto de gastos jamais seria furado. Está prestes a queimar a língua, já bem passada.

O adicional de R$ 100 que Bolsonaro injetou no benefício valerá até dezembro do ano eleitoral de 2022. E será financiado com recursos extraordinários. Estima-se que esse pedaço do gasto a ser feito fora do teto somará R$ 30 bilhões.

Confirmando-se o plano de Bolsonaro, vai para o beleléu qualquer noção de sobriedade fiscal. Arthur Lira, presidente da Câmara, diz que "não podemos pensar só em teto de gastos e responsabilidade fiscal em detrimento da população." Ciro Nogueira, o chefão da Casa Civil sustenta que o mercado "já precificou" o furo no teto.

Na prática, o Auxílio Brasil virou uma espécie de festa na laje, acima do teto. E Guedes tornou-se um asterisco a serviço dos interesses eleitorais do chefe e do centrão.

Respeito ao teto de gastos é mais ou menos como virgindade. Se perder, não dá segunda safra. O mercado já fatura com a esbórnia.