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Josias de Souza

Eleitor terá que fazer justiça com o próprio dedo

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/10/2021 09h05

Depois de flertar com uma divisão que fez a alegria de Bolsonaro, o grupo majoritário da CPI recobrou o juízo. Entendimento de última hora promoveu uma lipoaspiração no relatório de Renan Calheiros, extraindo dele gorduras como o enquadramento do presidente nos crimes de homicídio e genocídio de índios. O acordo assegura a aprovação do documento que consolida a mais devastadora e relevante Comissão Parlamentar de Inquérito da história.

Bolsonaro continua retratado no relatório como um criminoso serial. Sua biografia é convertida em prontuário. A CPI gruda nele nove imputações: 1) Epidemia com resultado de morte; 2) Infração a medidas sanitárias preventivas; 3) Emprego irregular de verba pública; 4) Incitação ao crime; 5) Falsificação de documento particular; 6) Charlatanismo; 7) Prevaricação; 8) Crime contra a humanidade; e 9) Crime de responsabilidade.

Juntos, esses crimes renderiam ao presidente mais de 80 anos de cadeia. O problema é que o acordo do grupo hegemônico livra a CPI do vexame, mas não assegura a punição do presidente. Na prática, a CPI transfere a batata quente para dois cúmplices de Bolsonaro, chefes do departamento de blindagens da República: o procurador-geral Augusto Aras e o presidente da Câmara Arthur Lira.

Lira já esclareceu que não cogita abrir o gavetão em que esconde os pedidos de impeachment. Ainda que Aras se animasse a abrir investigações cenográficas contra o presidente, os processos se arrastariam pelo ano eleitoral de 2022 sem um desfecho.

Por sorte, o eleitor brasileiro dispõe da possibilidade de fazer justiça com o próprio dedo, demonstrando a Bolsonaro na urna que seus crimes não passarão à história como uma gripezinha.

As pesquisas demonstram que um pedaço do eleitorado não está disposto a fechar os olhos para o negacionismo, a protelação na compra de vacinas, o kit das poções mágicas, a aposta no contágio coletivo, o desprezo às precauções sanitárias, a picaretagem do mercado paralelo de imunizantes e toda a engrenagem de ações e omissões que adicionaram horror e morte a uma pandemia que levou mais de 603 mil brasileiros à cova.