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Josias de Souza

Há método na lambança fiscal de Jair Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/10/2021 09h34

Aos olhos do mercado e da equipe econômica do governo, a lambança em que se converteu o lançamento do novo Bolsa Família, batizado de Auxílio Brasil, serviu para potencializar a sensação de que Bolsonaro opera no modo desespero. Em queda nas pesquisas, o presidente transformou o que deveria ser um programa social perene numa alavanca eleitoral temporária. Mas há método na ruína fiscal do capitão.

Estava combinado com Paulo Guedes que o benefício médio do novo Bolsa Família passaria de R$ 189 para R$ 300. Tudo acomodado embaixo do teto de gastos. Ou sob a marquise do calote nas dívidas judiciais. Sob influência dos caciques do centrão, Bolsonaro mandou elevar o benefício para R$ 400.

O adicional de R$ 100 entra na conta como pagamento temporário, válido apenas até dezembro do ano eleitoral de 2022. Esse acréscimo de última hora resultará num gasto de pelo menos R$ 30 bilhões fora do teto. Despesa extraordinária, a ser financiada fora do teto.

Na prática, Bolsonaro transfere a conta do seu desmando para o governo que assumirá em 2023. O que dá a ele a oportunidade de espalhar durante a campanha eleitoral que só a sua reeleição pode assegurar a continuidade do pedaço do Auxílio Emergencial que é temporário.

No passado, Bolsonaro chamava o Bolsa Família de crime. Dizia que o programa era um "cabresto" que o PT colocava no eleitorado pobre. Agora, o capitão financia com o déficit público a sua própria coleira.

Bolsonaro subestima a inteligência do brasileiro humilde. Acha que o beneficiário do Bolsa Família não nota que o governo tira com estímulo à inflação e a trava nos investimentos o que finge dar na forma de benefício social.

De resto, o presidente superestima a subserviência de Paulo Guedes. Ao enfiar seu populismo fiscal numa espécie de sobreloja do teto de gastos, Bolsonaro empurra o prestígio do seu ministro da Economia para o subsolo.