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Josias de Souza

Guedes vira ministro 007: 'Licença para gastar!'

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/10/2021 09h34

A realidade brasileira supera a ficção. Paulo Guedes se autoconverteu num ministro 007, com licença para gastar. No cinema, James Bond mata os vilões, livrando a humanidade de todas as ameaças. No Ministério da Economia, Guedes utiliza a fome dos pobres como álibi para exterminar os últimos resquícios de responsabilidade fiscal.

A aventura do agente secreto Bond é divertida, dura o tempo de uma sessão de cinema e custa um ticket. A desventura do economista Guedes é sem graça, invade os futuros governos e custa a alta da inflação.

Há no Brasil 43 milhões de pessoas com alimentação precária e 19 milhões de famintos. O governo prometia há mais de um ano providenciar um reforço do Bolsa Família para a fase pós-auxílio emergencial.

O pagamento do vale pandemia termina em dez dias. E Bolsonaro oferece não um programa de renda mínima, mas uma empulhação eleitoral.

O objetivo do governo não é saciar a fome de brasileiros que disputam restos de comida com ratos nas caçambas de lixo. Deseja-se matar a fome de votos de um presidente em apuros.

Um governo sério socorreria os pobres cortando o auxílio centrão, que custa R$ 17 bilhões em emendas orçamentárias secretas, e as isenções tributárias estimadas em R$ 371 bilhões no Orçamento de 2022. Paulo Guedes prefere se autoatribuir uma licença para gastar.

Com essa licenciosidade, o ministro derruba o teto de gastos na cabeça dos brasileiros que o governo finge socorrer. Rebatizado de Auxílio Brasil, o Bolsa Família passará de R$ 189 para R$ 400. O grosso do reajuste será temporário, com prazo de validade até dezembro do ano eleitoral de 2022.

Além de um furo de R$ 30 bilhões no teto de gastos, haverá um calote nas dívidas judiciais. A inflação resultante da irresponsabilidade fiscal mastiga o socorro antes de sua formalização, permitindo aos famintos ganhar cada vez menos para alimentar a ilusão de que conseguirão comprar alimentos que custam cada vez mais.

O economista Paulo Guedes virou um ficcionista que venceu na vida. Junto com a inflação sobe o câmbio. A diferença é que a alta do custo de vida reduz o valor de compra de salários e benefícios sociais. E a alta da cotação da moeda americana valoriza a fortuna do ministro no paraíso caribenho.