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Josias de Souza

Privatização da Petrobras é a cloroquina econômica

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/10/2021 09h16

Boas notícias, afinal. Nas últimas 72 horas não houve nenhum aumento do índice de empulhação no governo Bolsonaro. Continua nos mesmos 100%. Depois de deixar os mercados com os nervos à flor da pele com sua irresponsabilidade fiscal, Bolsonaro e Paulo Guedes borrifaram no noticiário a ideia de privatizar a Petrobras. Isso não passa pela cabeça do presidente. O ministro sabe que não vai acontecer. Trata-se de uma espécie de cloroquina econômica. A ilusão surtiu os efeitos desejados. As ações da Petrobras tiveram uma valorização de quase 7%.

Autoconvertido num liberal sem comprovação científica, Guedes confundiu bagunça com atividade. "Bastou o presidente dizer 'vamos estudar' e o negócio sai subindo e aparecem R$ 100 bilhões. Não dá para dar R$ 30 bilhões para os mais frágeis num momento como este? Se basta uma frase do presidente para aparecer R$ 100 bilhões e brotar do chão de repente?" A frase do ministro é de fazer corar os alunos do primeiro ano do curso de economia. Guedes tratou a volatilidade de ações sujeitas às trapaças do mercado como se fosse dinheiro vivo no Orçamento.

O mesmo ministro que recorre ao lero-lero privatista para camuflar sua rendição às conveniências eleitorais de Bolsonaro e do centrão chamou de "conversinha" as estimativas sobre o custo econômico da balbúrdia fiscal agravada pelo desrespeito ao teto de gastos. O banco Itaú já prevê recessão para o ano eleitoral de 2022, com queda de 0,5% do PIB. O banco JP Morgan estima que haverá estagnação, com crescimento zero. Generaliza-se no mercado a percepção de que subirão o câmbio, a inflação, os juros e o desemprego.

Alheio à realidade, Paulo Guedes agradece pelo apoio do chefe. "É sempre assim, eu estou morrendo afogado, ele aparece, renova a confiança nós continuamos nessa aliança de liberais e conservadores por um futuro melhor do nosso país." O ministro confunde presidente com divindade. Bolsonaro é arcaico, não conservador. Guedes também confunde pose com dignidade. Trocou liberalismo por populismo. Com água na altura do nariz, o fura-teto Guedes acha que foi salvo por Bolsonaro da correnteza do centrão. Ainda não notou. Mas está agarrado a um jacaré imaginando que é um tronco.