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Josias de Souza

Ao impor filha ao colégio militar, Bolsonaro faz do privilégio uma religião

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/10/2021 10h16

Bolsonaro traz no DNA o gene do patrimonialismo. A questão não é que o presidente tenha dificuldade para distinguir entre o público e o privado. O problema é que, sabendo a diferença entre uma coisa e outra, o capitão não hesita em fazer do privilégio uma espécie de religião. O hábito consolidou-se com Laurinha, a filha caçula do presidente.

O Exército confirmou que Laura Bolsonaro foi matriculada no Colégio Militar de Brasília sem passar pela prova de seleção. A novidade potencializa a impressão de que Bolsonaro é um mau pai, além de ser péssimo presidente.

É um pai relapso porque prefere dar exemplo nefasto à filha a testar os recursos cognitivos e o repertório intelectual dela. Pior para Laurinha, que corre o risco de virar uma versão Zero Cinco de saia dos irmãos Zero Um, Zero Dois, Zero Três e Zero Quatro.

Bolsonaro é um presidente lastimável porque trata escolas militares como sucursais da Casa da Mãe Joana, veneranda senhora. Desmerece uma instituição militar prestigiada.

Alega-se o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, concedeu autorização para a matrícula de Laurinha em "caráter excepcional". Atropelou as normas.

O artigo 152 do regimento que trata das escolas militares é explícito: têm direito de não se submeter a exames as crianças órfãs de pais militares e os filhos de oficiais que estão em missão oficial no exterior.

Não consta do regimento a excepcionalidade invocada para matricular a filha de um presidente da República que, embora se apresente como militar, foi expurgado do Exército depois de puxar cadeia por indisciplina.

Há dois meses, em 21 de agosto, um sábado, a primeira-dama Michelle Bolsonaro, mãe de Laurinha, voou com sete parentes nas asas da FAB. Foi de Brasília para São Paulo. O jato da Força Aérea foi requisitado pela ministra Damares Alves (Família e Direitos Humanos).

O pretexto para retirar a aeronave do hangar foi a participação em evento do programa Pátria Voluntária, coordenado por Michelle. À noite, Damares e Michelle foram à celebração do aniversário de um amigo de ambas: o maquiador Agustin Fernandez.

A matrícula de Laurinha e o voo de sua mãe e da parentela reforçam a percepção de que Bolsonaro e sua família confundem o Estado com propriedade particular. O hábito vai da escola à rachadinha, holding familiar que executa o mais delicioso dos privilégios: gastar o dinheiro alheio.