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Josias de Souza

Eduardo Bolsonaro propõe a liberação da propaganda de armas de fogo

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/11/2021 10h09

O absurdo adquiriu no Congresso Nacional uma admirável naturalidade. Os brasileiros já não se espantam. Os congressistas muito menos. Proposta do deputado Eduardo Bolsonaro sugere a liberação de propagandas sobre armas de fogo em jornais, revistas, TVs e redes sociais. E a maioria dos seus colegas não faz a concessão de uma surpresa. Em vez de ignorar a iniciativa, a Comissão de Segurança Pública da Câmara fará audiência pública na próxima terça-feira para discutir o projeto.

A publicidade de armas está proibida no Brasil desde o ano 2000. Relator da proposta que sugere a volta ao passado, o deputado Eli Corrêa (DEM-SP), se declara contra o retrocesso. Mas a insensatez flutua na atmosfera do Legislativo. Ao defender sua proposta, Eduardo Bolsonaro sustentou que é preciso assegurar o acesso às armas porque "deixar o cidadão desarmado é estratégia de governos opressores". Segundo Eduardo Bolsonaro, "sem armas o povo vira presa fácil para ditadores."

Em condições normais, o projeto seria apenas absurdo. A proposta se torna radioativa quando se recorda que o filho do presidente da República ecoa a vontade do pai. Conhecido pelos pendores ditatoriais que seu filho apresenta como pretexto para propagandear armas de fogo, Bolsonaro já chamou de "idiota" quem prefere o feijão aos fuzis. "Tem que todo mundo comprar fuzil, pô", disse o capitão numa de suas manifestações no cercadinho. "Povo armado jamais será escravizado", declarou o hipotético presidente.

Bolsonaro prevaleceu em 2018 prometendo uma guinada conservadora. Revelou-se atrasado, não conservador. Com a ajuda dos filhos, o presidente reformou o lema do versículo bíblico que cultua desde a campanha. No evangelho de Bolsonaro, o João 8:32 foi traduzido para "conhecereis a mentira, e a mentira vos aprisionará".

Se for aprovado nas comissões da Câmara, o projeto de Eduardo Bolsonaro pode ser enviado ao Senado sem passar pelo plenário. Num país em que há quase 14 milhões de desempregados e mais de 19 milhões de famintos, o desperdício de tempo e dinheiro com o debate sobre a liberação da publicidade de armas é uma evidência de que a família Bolsonaro deseja aprisionar o Brasil dentro do seu círculo de insanidade.