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Josias de Souza

Financiamento do Auxílio Brasil acentua divergências do BC com Paulo Guedes

Ueslei Marcelino/Reuters
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

01/12/2021 11h59

O Auxílio Brasil não passa, por enquanto, de uma medida provisória à espera de uma fonte de financiamento. Mas Bolsonaro e seus parceiros do centrão já utilizam o novo Bolsa Família como peça de resistência da campanha à reeleição. O pano de fundo do ato de filiação de Bolsonaro ao PL foi um enorme painel no qual o novo filiado foi apresentado como "o presidente que faz o maior programa social do mundo." Essa doce atmosfera de populismo eleitoral contrasta com o azedume que permeia o relacionamento das duas principais autoridades econômicas do governo: o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto; e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Enquanto o PL envernizava a imagem de Bolsonaro como um novo pai dos pobres, Campos Neto criticava num encontro promovido pela Federação Brasileira de Bancos a forma como o Auxílio Brasil foi estruturado. "Existe uma percepção que a forma que foi feita abalou o arcabouço fiscal que existia", disse ele. Referia-se à PEC dos precatórios, que dá o calote em dívidas judiciais, fura o teto de gastos e dribla a Lei de Responsabilidade Fiscal para permitir que Bolsonaro gaste R$ 106 bilhões em 2022. Desse valor, R$ 51 bilhões financiarão os R$ 400 mensais que o presidente prometeu à clientela do antigo Bolsa Família.

Idealizador da PEC do calote, Paulo Guedes disse que a emenda constitucional "foi bastante modificada" no Congresso. Mas "ainda é essencial". Avalia que sua aprovação é "o menos ruim que pode acontecer no Brasil no momento." Campos Neto preocupa-se menos com o tamanho do desvio fiscal do que com a forma. Acha que haveria maneiras mais responsáveis de socorrer os pobres. Não está sozinho.

Muitos outros economistas avaliam que as consequências da irresponsabilidade —inflação, juros e recessão— mastigam os R$ 400 reais antes que o dinheiro chegue ao bolso dos brasileiros que Bolsonaro quer usar para alimentar sua fome de votos.

No início do seu governo, em abril de 2019, Bolsonaro disse numa entrevista que a reeleição é péssima para o país, porque os governantes "se endividam, fazem barbaridade, dão cambalhota" para se reeleger. Hoje, o capitão faz as suas barbaridades. E Paulo Guedes dá cambalhotas junto com o chefe.

Com a política fiscal em frangalhos, Campos Neto carrega o piano da política monetária. Faz o que lhe resta: sobe os juros e regula a torneira do câmbio. Beneficiado pela autonomia do Banco Cenral, leva a boca ao trombone.