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Josias de Souza

Evangélico no STF é uma peça-chave da engrenagem eleitoral de Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

02/12/2021 08h57

O pastor presbiteriano André Mendonça celebrou a aprovação no Senado de sua indicação para o Supremo Tribunal Federal com uma frase simbólica: "É um passo para um homem, um salto para os evangélicos." Foi uma alusão ao comentário do primeiro ser humano a pisar na Lua, há 52 anos: "Este é um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a humanidade", disse o astronauta americano Neil Armstrong ao pisar com o pé esquerdo a superfície lunar. Ao entrar no Supremo, provavelmente com o pé direito, o novo magistrado Mendonça se converterá automaticamente numa peça-chave da engrenagem eleitoral de Bolsonaro.

Em queda nas pesquisas, Bolsonaro precisa se segurar nas cercanias dos 25% e torcer pelo estilhaçamento da chamada terceira via para chegar ao segundo turno. Ao longo deste ano, Bolsonaro perdeu onze pontos percentual no eleitorado evangélico, que soma 26% da amostra populacional. Nesse nicho, Bolsonaro ainda prevalece sobre Lula. Mas sua vantagem é de apenas quatro pontos percentuais: 38% a 34% num cenário; 36% a 32% noutro. Se Bolsonaro conseguir chegar ao segundo turno, os evangélicos serão novamente um alvo preferencial da sua pregação.

Casado com o centrão, o presidente perdeu o mote do combate à corrupção. A inflação, o desemprego e a perspectiva de recessão o descredenciam para o debate econômico. O desastre sanitário escancara a inanição do seu discurso. Restarão o novo Bolsa Família de R$ 400 e a pauta conservadora dos costumes. Bolsonaro pintará Lula como um comunista defensor do aborto. Vai equiparar a volta do PT ao poder a um Apocalipse. E dirá que "ter 18% de mim dentro do Supremo" é muito pouco para proteger a família. Repetirá algo que já vem realçando em cultos evangélicos: o próximo presidente indicará mais dois ministros para o Supremo. Bolsonaro fará as contas: "Terei, então, 36% de mim dentro do Supremo" —quatro num colegiado de 11.

Lula já farejou os planos do adversário. Disse que o PT não pode dar de barato que os evangélicos se comportam "como gado". Defendeu que seu partido faça soar o bumbo da política social do seu antigo governo, que que incluía o Bolsa Família, agora capturado por Bolsonaro. Ironicamente, André Mendonça foi aprovado pela estreita margem de seis votos, com o apoio de parte da bancada do PT. Na sabatina, declarou: "Na vida a bíblia, no Supremo a Constituição." Depois de aprovado, cercado de evangélicos, falou em Deus e religião. Bolsonaro correu às redes sociais, o seu mundo da lua, para cultuar a si mesmo: "Meu compromisso de levar ao Supremo um terrivelmente evangélico foi concretizado."