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Josias de Souza

Bolsonaro ateou num grupo de evangélicos sentimentos terrivelmente lulistas

                                 O ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro                              -                                 RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA E CAROLINA ANTUNES/PR
O ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro Imagem: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA E CAROLINA ANTUNES/PR
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/12/2021 19h50

Bolsonaro costuma tratar os evangélicos como um rebanho uniforme de bolsonaristas. Como se não houvesse diferença, por exemplo, entre protestantes históricos e tardios. Ou entre os adeptos do movimento pentecostal e os restauracionistas. O Datafolha traduz em números o que o senso comum já intuía: Bolsonaro fala em Deus com tal convicção que desperta em parte da comunidade evangélica sentimentos terrivelmente lulistas.

Para 43% dos evangélicos, Lula foi o melhor presidente que o Brasil já teve, contra 19% que avaliam Bolsonaro como superior. Invertendo-se a pergunta, 35% dos evangélicos acham que o capitão é o pior presidente da história. O título ruinoso é atribuído a Lula por 25%.

Segundo o Datafolha, a imagem de Bolsonaro entre os evangélicos já foi melhor. No início do ano, reprovavam o atual governo 30% desse nicho do eleitorado. Hoje, 39% consideram a administração Bolsonaro ruim ou péssima. A taxa de aprovação do governo entre os evangélicos caiu oito pontos, de 40% para 32%.

A Bíblia ensina que para tudo existe um tempo —um tempo para construir, um tempo para colher, um tempo para semear. E um tempo para curar. Bolsonaro não notou. Mas passou da hora de curar o Brasil.

O ensinamento está no livro de Eclesiastes (3:1-8). Anota que há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu. Tempo de matar e tempo de curar. Tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las. Tempo de rasgar e tempo de costurar. Tempo de odiar e tempo de amar. Tempo de lutar e tempo de viver em paz.

O Brasil amarga duas patologias: a Covid e o ódio. Contra a primeira, o remédio é a vacina. O número de mortes declina na proporção direta do avanço da vacinação. Contra a segunda, há dois velhos imunizantes à disposição: sensatez e moderação. Bolsonaro não dispõe de nenhum dos dois.

Sempre que uma oportunidade de baixar a temperatura política bate à porta de Bolsonaro, ele reclama do barulho. E eleva a fervura. Estimula divisões. Submetidos à sua dinâmica, cidadãos não se enxergam, não se ouvem. Tratam-se como inimigos. Muitos começam a se dar conta de que não são rivais. São brasileiros.

O lógico seria que, depois de eleito, Bolsonaro virasse um presidente de todos, inclusive dos que não votaram nele. Mas sempre fez questão de governar para um terço da população. Espalhou raiva e desinformação. Perdeu apoio.

Sem enxergar nada de muito atraente à sua frente, um pedaço do eleitorado observa o retrovisor. Materializa-se na política brasileira um fenômeno descrito no mesmo livro de Eclesiastes, no capítulo 1, versículo 9. Diz o seguinte: "O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol."

Ao apostar na divisão, Bolsonaro como que convidou o eleitorado reviver 2018 no ano de 2022, só que com o sinal trocado. O antipetismo ficou menor do que o antibolsonarismo. Beneficiado pela anulação de sentenças por questões processuais, Lula fala, estalando de pureza moral, em ressurreição.