PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Bolsonaro desativa Posto Ipiranga e entrega chaves do Orçamento ao centrão

Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/12/2021 14h55

Em matéria de Orçamento da União, existem três tipos de ministros econômicos. Tem ministro que faz o Orçamento. Tem ministro que manda fazer. E tem ministro como o Paulo Guedes, que sai de férias e pergunta depois: O que foi que aconteceu? O ex-superministro finge não notar. Mas já virou ex-ministro. Na prática, Bolsonaro concluiu a desativação do Posto Ipiranga. Entregou as chaves d Orçamento ao centrão.

Há quase tudo no Orçamento de 2022, exceto interesse público. Aprovou-se uma espécie de combo para saciar os apetites do comboio bolsonarista. Para o balcão das emendas do centrão, R$ 16,5 bilhões. Para o fundão que ajudará a reeleger a bancada do atraso, quase R$ 5 bilhões. Para investimentos dos militares, mais de R$ 8 bilhões. Para adular as polícias federais, reajuste de R$ 1,7 bilhão.

Paulo Guedes diz ter manifestado sua contrariedade com o aumento seletivo para os policiais federais. E daí? Num governo convencional, as relações administrativas costumam seguir uma combinação de fatores lógicos. Falta nexo ao comportamento do suposto ministro da Economia.

Se um ministro executa algo que não coincide com a vontade do chefe, ele é mandado embora. Se o presidente ignora um conselho técnico do titular da Economia, aí é o ministro quem pede para sair.

Quando um ministro da Economia desaconselha um o reajuste salarial e depois bate continência para a humilhação de um aumento concedido a policiais federais à sua revelia dá-se o fenômeno do encolhimento. Em vez de elevar a própria estatura, Guedes reduz o pé-direito do ministério.

O rebaixamento atual é mais grave porque foi feito à custa da avacalhação do pouco que restava de política fiscal. Para colocar mais dinheiro sobre a mesa, o Congresso perfurou o teto de gastos e deu um beiço em dívidas judiciais irrecorríveis.

Dizia-se que o centrão ficara com raiva porque o Senado colocou um carimbo social nos R$ 113 bilhões que resultaram das manobras. Engano. O centrão não fica com raiva. O grupo fica com tudo. O benefício de R$ 400 para os pobres serviu de biombo para que o centrão cavasse noutros nichos do Orçamento a verba para o balcão do Arthur Lira e para o fundão que reelegerá a oligarquia patrimonialista.

Noutros tempos, deputados suplicavam por espaço nas agendas da Esplanada para mendigar recursos federais. Inverteu-se a mão da via. Agora, ministros fazem fila no gabinete da Presidência da Câmara para conseguir uns trocados.

O próprio Bolsonaro teve de interromper o funk do Guarujá para encarecer, pelo telefone, que o relator do Orçamento, Hugo Leal, não deixasse os policiais federais na chuva. O presidente dança no ritmo do centrão.