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Josias de Souza

Queiroga escora retórica infanticida no Supremo

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/12/2021 20h21

Marcelo Queiroga, o titular da pasta da Saúde, firmou uma parceria inusitada com o ministro Ricardo Lewandowski. Ao justificar sua falta de pressa em vacinar crianças contra Covid, ele declarou que o magistrado do Supremo Tribunal Federal avalizou a consulta pública que o governo fará na internet até 2 de janeiro.

Brandindo dados segundo os quais a Covid já matou no Brasil 301 crianças de 5 a 11 anos, Queiroga impacientou-se com os repórteres que o apertaram nesta quinta-feira: "Os óbitos de crianças estão dentro de um patamar que não implica em decisões emergenciais."

Três centenas de crianças lotariam um jato. Mortas de supetão, num acidente fatal, chocariam o país. Exterminadas em conta-gotas viraram estatística para ornamentar o negacionismo do ministro da Saúde. Com o aval de uma toga suprema.

Na última sexta-feira (17/12), Lewandowski dera 48 horas para que o governo prestasse esclarecimentos sobre a inclusão da vacina infantil da Pifizer no plano nacional de imunização. A resposta veio num formato de embromação.

O governo pediu mais prazo a Lewandowski. Embora a Anvisa tivesse aprovado a vacina, Queiroga alegou que precisava ouvir a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid, além de realizar uma consulta pública sobre a vacina.

Era tudo lorota. Em decisão unânime, a câmara técnica já cerrara fileiras ao lado da Anvisa. A consulta pública é uma inovação inédita e esdrúxula. Não faz nexo contrapor a opinião de leigos às conclusões científicas.

Curiosamente, Lewandowski concedeu o prazo reivindicado pelo governo: 5 de janeiro. Só então Queiroga dirá até quando pretende sonegar vacina às crianças. Segue ordens de Bolsonaro. Mas pode escorar a retórica infanticida no Supremo.

Segundo Queiroga, ainda que as vacinas infantis começassem a ser aplicadas amanhã não haveria como resolver "o problema de forma retrospectiva". De fato, não há como ressuscitar meninos mortos. O que se deseja é salvar os vivos.

Numa pandemia, tempo é vida. Ao matar o tempo, Queiroga como que reescreve o atestado de óbito das futuras vítimas mirins do vírus.

Até aqui as crianças infectadas morriam de Covid. Enquanto a vacina não chegar aos postos de Saúde, a causa mortis será "ministro da Saúde". A esse ponto chegamos. Morre-se de Queiroga no Brasil.