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Josias de Souza

Saio em férias para aderir ao MRVP, Movimento de Resgate de Verbas Públicas

Getty Images/iStockphoto/Abscent84
Imagem: Getty Images/iStockphoto/Abscent84
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/12/2021 12h03

Ouvi dizer que há um movimento para recuperar as verbas públicas sequestradas pelo centrão. Contribuintes indignados estariam se reunindo em segredo para planejar a operação. É uma questão humanitária. Receoso de que o meu dinheiro seja desencaminhado nos recônditos do Tesouro Nacional, saio em férias para aderir à sublevação.

Soube que o movimento estaria dividido. Uma ala defende uma operação espetacular: a invasão do Ministério da Economia e a captura de Paulo Guedes como refém, seguida de um ultimato para que Bolsonaro devolva as verbas aos verdadeiros donos. Outro grupo defende um ataque ao próprio Tesouro, de onde o dinheiro seria retirado numa ação fulminante e levado de volta para o bolso do contribuinte antes de virar emenda do orçamento secreto ou de cair na orgia do fundão eleitoral.

As duas ações envolvem riscos. A captura de Guedes como refém pode ser inócua, porque Bolsonaro talvez considere que o ex-superministro, autoconvertido em capacho, já não vale o custo de um resgate. O ataque ao Tesouro pode ser malsucedido, porque ninguém sabe o que está acontecendo lá dentro. Há boatos de que o dinheiro já saiu pelo ladrão. Há também a informação de que falanges do centrão vigiam os cofres públicos dia e noite, às vezes comandadas pelo próprio Arthur Lira.

O MRVP, Movimento de Resgate de Verbas Públicas, surgiu depois que a ministra Rosa Weber sucumbiu às pressões do centrão, liberando o pagamento das emendas secretas remanescentes de 2021. Na sequência, a oligarquia política do Congresso reservou R$ 44,3 bilhões do Orçamento de 2022 para investir na sua própria sobrevivência política. A cifra foi para o fundão eleitoral, o fundo partidário, a renúncia tributária de emissoras de rádio e TV pela veiculação de propaganda de candidatos e as emendas orçamentárias.

Cogitou-se rodear o Planalto de cartazes, esperando que eles fossem vistos das janelas. Entretanto, depois que Bolsonaro filiou-se ao PL, partido do ex-preso do mensalão Valdemar Costa Neto, o MRVP optou por atuar na clandestinidade, planejando ações mais radicais. Ao proteger parte de sua fortuna num paraíso fiscal caribenho, o próprio Paulo Guedes tornou-se um precursor do movimento.

Meu dinheiro pode não ser grande coisa. Não tem peso para se esconder numa offshore e pedir asilo financeiro nas Ilhas Virgens Britânicas ou nas Ilhas Cayman. Mas é o meu dinheirinho. Creio que ainda pode ser recuperado para uma vida mais honesta e produtiva. Não posso abandoná-lo agora. O plano de resgate exige dedicação integral. Daí o ócio das férias. Desejem-me sorte. Volto em 19 de janeiro. Até lá.