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Josias de Souza

Ameaça à democracia não representa cheque em branco à campanha de Lula

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/05/2022 11h00

Bolsonaro tornou as coisas mais fáceis para Lula. Tão fáceis que bastou o líder nas pesquisas anunciar que sua prioridade é restaurar a democracia e reconstruir tudo o que o capitão destruiu —saúde, educação, ciência, meio ambiente cultura...— para que a mistura de lula com chuchu fosse vendida como manjar. "Um hit da culinária brasileira", exagerou Alckmin. "O prato da moda no Planalto" em 2023, ecoou Lula.

Impossível discordar da prioridade atribuída à democracia e à reconstrução da administração pública. Mas o desafio é bem maior do que misturar lula com chuchu numa chapa ou numa receita de risoto replicada nas redes sociais. Será necessário administrar diferenças internas para apresentar um cardápio econômico mais denso e palatável.

Para ficar nos exemplos superficiais, Lula defende mudanças na política de preços da Petrobras e abomina as privatizações. Alckmin e outros conservadores que o pajé do PT deseja atrair para sua caravana querem a paridade internacional dos preços dos combustíveis e a desestatização de empresas como a Eletrobras. Aprovam a venda de subsidiárias da Petrobras.

A despeito dos ataques ao sistema eleitoral e das ameaças às instituições, Bolsonaro avançou nas pesquisas eleitorais. O crescimento empurra Lula para um discurso do tudo-ou-nada democrático. Quanto maior for o número de aliados, mais aguado tende a ficar o programa de governo. Para atrair eleitores não convertidos, a pregação torna-se evasiva.

Sumiram do pronunciamento lido por Lula no sábado, por exemplo, referências à reforma trabalhista. Nem revogação nem revisão. Nada! Aprisionado dentro das quatro linhas do discurso escrito, Lula preferiu equiparar a defesa dos direitos trabalhistas com uma pregação anódina em favor da retomada do crescimento econômico.

Num ambiente assim, é preciso cuidar para não produzir uma decepção pós-eleitoral. Supondo que Lula prevaleça, Bolsonaro vai para casa. Nem por isso a inflação acabará, os empregos ressurgirão e o endividamento dos brasileiros desaparecerá. É preciso informar quais são os planos para melhorar a mistura.

Pode-se anunciar boa comida da boca pra fora. Mas é da boca pra dentro que se descobre a qualidade do prato. O risco à democracia não pode ser confundido com cheque em branco. Convém adicionar tempero à receita. Sob pena de encurtar o intervalo entre a eventual consagração e a desilusão.