PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro deixa Deus mal com sua campanha

Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/05/2022 12h19

Bolsonaro costuma dizer quer sua Presidência é uma missão divina e que só Deus pode retirá-lo do trono. Não se sabe quando Bolsonaro passou a acreditar em Deus. Mas, embora certas atitudes do presidente não combinem com o espírito cristão, não se deve duvidar de sua conversão. Para quem já aceitou o centrão, a metafísica não parece uma adesão tão radical. O problema é que Bolsonaro deixa Deus em má situação. Sonega aos contribuintes que lhe pagam os salários e as mordomias até a mais trivial das contrapartidas: cinco horas de expediente por dia.

Bolsonaro já não separa o presidente do candidato. A própria Michelle Bolsonaro devia estar meio confusa. Não sabia se acordava com o presidente ou com o candidato. Entretanto, depois que a primeira-dama aderiu à campanha o candidato passou a prevalecer sobre o presidente sem nenhum constrangimento. Não espanta que tenha dobrado o número de viagens presidenciais nos primeiros meses deste ano eleitoral de 2022 em comparação com o mesmo período do ano passado.

Desde janeiro, Bolsonaro passou 41 dias em viagem. Os deslocamentos consumiram quase 30% do seu tempo. O presidente transforma atos administrativos em comícios. Ornamenta o álbum de suas viagens com imagens de passeios a cavalo, no lombo de um jegue, em cima de motocicletas. Encaixa na agenda visitas a cultos religiosos.

Pela lei, a campanha eleitoral só começa em 16 de agosto. Mas Bolsonaro é candidato à reeleição desde 1º de janeiro de 2019, quando tomou posse. Usa a máquina do estado como se ela fosse sua. Faz isso porque os antecessores também fizeram e porque a Justiça Eleitoral é omissa.

Um presidente da República se obriga a dar pelo menos cinco horas de expediente por dia. Nesse intervalo, precisa ler relatórios, ouvir interlocutores e encaminhar a resolução de problemas. Bolsonaro abomina a leitura, não suporta auxiliares que lhe digam coisas que não quer ouvir e terceiriza todas as ruínas.

Embora tenha recebido da sociedade um mandato para ser solução, Bolsonaro tornou-se parte do problema. Mas as pesquisas indicam que algo como 30% do eleitorado se dispõe a desafiar Deus a provar que existe reelegendo Bolsonaro.