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Josias de Souza

Não há ação judicial capaz de apagar da historiografia assalto à Petrobras

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/05/2022 10h26

Será dura e encrespada a excursão de Sergio Moro pelos nove círculos do inferno. É o que revela a conversão de Moro em réu numa ação em que deputados petistas pedem que ele seja condenado a indenizar o erário por supostos prejuízos causados pela Lava Jato à Petrobras e à economia nacional. Moro forneceu muito material para quem deseja questionar seu trabalho como magistrado. Mas se há algo incontroverso nesse caso é que a Petrobras foi saqueada nos governos do PT.

"Cite-se o réu", ordenou o juiz Charles Renaud Frazão de Morais, da Segunda Vara Federal Cível de Brasília. Moro terá de se defender da acusação segundo a qual "manipulou" a Petrobras como juiz, tratando a estatal "como mero instrumento útil ao acobertamento dos seus interesses pessoais".

Quem manuseia o balanço da Petrobras referente ao ano de 2014, durante a Presidência de Dilma Rousseff percebe que a ação dos parlamentares tem pouco futuro. Na peça, a estatal estimou em US$ 2,5 bilhões —R$ 6,2 bilhões pelo câmbio da época— as perdas que a roubalheira produziu.

No balanço da Petrobras, a perversão foi resumida assim: "...Um conjunto de empresas que, entre 2004 e abril de 2012, se organizaram em cartel para obter contratos com a Petrobras, impondo gastos adicionais nestes contratos e utilizando estes valores adicionais para financiar pagamentos indevidos a partidos políticos, políticos eleitos ou outros agentes políticos, empregados de empreiteiras e fornecedores, ex-empregados da Petrobras e outros envolvidos no esquema de pagamentos indevidos".

Nos governos de Lula, diretorias da Petrobras foram servidas no balcão da baixa política para três partidos: PT, MDB e PP. O assalto foi confessado por empreiteiros corruptores e servidores corrompidos. Parte do produto do roubo retornou aos cofres da estatal. Numerário escondido na Suíça foi repatriado. Os larápios pagaram multas pesadas. Muitos puxaram cana, incluindo políticos e gestores das arcas petistas.

Pode-se infernizar a rotina de Sergio Moro de muitas maneiras. O ex-juiz cavou seu infortúnio ao trocar mensagens tóxicas com procuradores no Telegram e ao se transferir da 13ª Vara Federal de Curitiba para o Ministério da Justiça de Bolsonaro. Mas não há ação judicial capaz de apagar da historiografia nacional o assalto praticado na Petrobras. Quem causou prejuízos à estatal e ao país foi a corrupção desenfreada, não os policiais federais, os auditores fiscais, os procuradores e os magistrados que trouxeram o escândalo à tona.