PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Vaivém de presidentes carboniza a Petrobras

Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/05/2022 09h28

O ritual truculento adotado pelo Planalto para se livrar de dirigentes da Petrobras criou no comando da maior companhia do país uma atmosfera de churrasco na laje. Depois de assar três presidentes da estatal, Bolsonaro dedica-se a carbonizar a própria estatal. Indica o quarto comandante da empresa no intervalo de um ano e três meses. O objetivo não declarado da troca de José Mauro Coelho, há apenas 39 dias no cargo, por Caio Paes de Andrade, um neófito em petróleo, é empurrar novos reajustes dos combustíveis para depois das eleições presidenciais.

Nesse penúltimo lance, o rodízio de Bolsonaro inclui duas novidades: 1) Paulo Guedes assume sem constrangimentos o papel de auxiliar de churrasqueiro. Com a mão esquerda, o ministro da Economia maneja o espeto. Com a mão direita, joga no braseiro sua cartilha liberal. 2) Dessa vez, Bolsonaro trama controlar os preços dos combustíveis na base do vai ou racha. Mesmo que tenha que rachar a lei e o estatuto da Petrobras, abstendo-se de lidar a sério com o problema.

De acordo com a Lei as Estatais, sancionada sob Michel Temer, o presidente da Petrobras precisaria ter uma afinidade qualquer com o setor energético. Formado em comunicação social, Paes de Andrade tornou-se reconhecido como um especialista em tecnologia da informação. Na equipe de Guedes, chefiava a Secretaria de Desburocratização, Gestão e Governo Digital. Nada a ver com petróleo e derivados.

Reformulado para evitar a repetição do controle de preços nos moldes do que foi adotado no ruinoso governo de Dilma Rousseff, o estatuto da Petrobras prevê que, se o governo decidir "fazer política social" com os combustíveis, terá de reembolsar os prejuízos causados à estatal. Em bom português, isso significa usar dinheiro do Tesouro para subsidiar combustíveis fósseis. Algo que o governo diz que não planeja fazer.

Ou seja: após classificar o lucro da Petrobras como "estupro", Bolsonaro está a um passo de violar as regras de governança da companhia, com a cumplicidade de Paulo Guedes. Tudo isso sem levar à vitrine um debate sério sobre a política que encosta os reajustes dos combustíveis consumidor no mercado interno na variação da cotação do óleo no exterior.