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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Planalto e Petrobras meteram-se num jogo de gato e rato que custará caro

Gasolina pode ficar até R$ 1,65 mais barata com a medida do governo - Imagem: Ernani Abrahão | AutoPapo
Gasolina pode ficar até R$ 1,65 mais barata com a medida do governo Imagem: Imagem: Ernani Abrahão | AutoPapo
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/06/2022 18h55

O Planalto e a Petrobras meteram-se num jogo de gato e rato. Bolsonaro e seus operadores gostariam que a estatal travasse o preço dos combustíveis até depois da eleição. Ou, no limite, pelo menos até a conclusão da tramitação legislativa do pacote concebido para represar artificialmente os reajustes. A direção da companhia avalia que é preciso anunciar novos preços imediatamente, sobretudo do diesel. Alega-se que o congelamento disfarçado pode levar ao desabastecimento de óleo no segundo semestre.

Rodando na casa dos dois dígitos há mais de oito meses, a inflação tornou-se a principal preocupação do comitê de campanha de Bolsonaro. Num esforço para atenuar a carestia que corrói a renda e a paciência do eleitorado, o presidente mobiliza sua infantaria para fazer avançar o pacote que tabela em 17% o ICMS cobrado pelos estados sobre combustíveis, energia, transporte público e telecomunicações, além de zerar até o final deste ano eleitoral os tributos sobre diesel e gás de cozinha.

Numa contabilidade otimista, que desconsidera o imponderável de uma economia em crise, estima-se que o pacote idealizado para abastecer o tanque da campanha à reeleição pode reduzir o preço da gasolina em R$ 1,65 e o do diesel em R$ 0,76. A coisa avança no Congresso. Mas o governo e o centrão ainda não controlam a cotação internacional do barril de petróleo, que está em alta. A defasagem do preço da gasolina, sem reajuste há quase cem dias, é estimada em 18%. A diferença do Diesel, há mais de um mês sem aumento, está em torno dos 19%.

O resultado da operação para reduzir artificialmente a inflação é incerto. Mas o custo será alto. Para erguer o dique que represará parte da carestia por seis meses, o governo se dispõe a torrar pelo menos R$ 46 bilhões do Tesouro Nacional em subsídios. Descerá pelo ralo uma cifra superior aos ganhos estimados com a privatização da Eletrobras.

Considerando-se que os mais de 40 milhões de brasileiros que vivem com menos de R$ 325 por mês não andam de carro e que não é certo que a manobra chegue ao preço dos alimentos, as autoridades deveriam se inspirar numa célebre metáfora do economista Ricardo Paes de Barros. Os pobres talvez fossem mais bem atendidos se o governo jogasse dinheiro de helicóptero.