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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jantar pago pelo déficit público reúne em Brasília magistrados e suspeitos

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/06/2022 09h10

O único lugar em que magistrados e suspeitos deveriam se encontrar é nas páginas dos processos judiciais. Fora disso, os dois lados deveriam viver separados para sempre, até que a morte os juntasse. Desafiando a lógica, o réu Arthur Lira ofereceu na residência oficial da presidência da Câmara um jantar em homenagem aos 20 anos da chegada de Gilmar Mendes ao Supremo Tribunal Federal.

Reuniram-se no mesmo ambiente Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes, que conduz investigações contra o presidente e é chamado de "canalha" por ele. Serviram-se também da comida e da bebida financiadas pelo déficit público, além do anfitrião Lira e do decano Gilmar, outras duas togas —Ricardo Lewandowski e Dias Toffolli— e representantes da fina flor do foro privilegiado. Por exemplo: Ciro Nogueira (Casa Civil), Anderson Torres (Justiça), Rodrigo Pacheco (PSD) e Aécio Neves (PSDB).

Magistrados que confraternizam com um personagem como Bolsonaro, que se esmera em desqualificar o Supremo e seus integrantes, confundem institucionalidade com avacalhação.

Em agosto, começam a campanha eleitoral e a gestão de Alexandre de Moraes no comando do TSE. Ao dividir a mesa com um candidato à reeleição que desqualifica as urnas, Moraes sinaliza que sua promessa de enviar para a cadeia quem subverter o processo eleitoral vale apenas até certo ponto. O ponto de interrogação.

De resto, políticos que se lambuzam no orçamento secreto e tramam virar a Lei das Estatais do avesso para voltar a plantar bananeira dentro de companhias como a Petrobras não deveriam receber senão intimações para interrogatórios. Quando recebem tapinhas nas costas e apertos de mão, tornam-se candidatos à impunidade.

Noutras circunstâncias, a falta de recato seria apenas ultrajante. Num instante em que o país assiste à prisão de um ex-ministro da Educação, num momento em que o brasileiro rala uma crise econômica que faz com que sobre mês no fim do salário, numa hora em que a fome infelicita 33 milhões de pessoas... Numa ocasião assim, jantares como o repasto oferecido por Lira são eventos abjetos.

A Brasília do Poder tornou-se uma abjeção.