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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

TJ-SP se autojulga no processo que opõe a jornalista da Folha e Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/06/2022 10h12

Bolsonaro vai transformando a democracia brasileira num regime com a cabeça a prêmio porque o país lhe oferece material. Ao retomar nesta quarta-feira o julgamento do caso sobre a ofensa do presidente da República à jornalista Patrícia Campos Mello, o Tribunal de Justiça de São Paulo está diante de uma boa oportunidade para interromper por um instante o fornecimento da principal matéria-prima que utilizada por Bolsonaro em sua fábrica de ameaças: a impunidade.

Patrícia veiculou na Folha as reportagens que trouxeram à luz o esquema de financiamento clandestino dos disparos em massa via WhatsApp que vitaminaram a campanha de Bolsonaro em 2018. Sem respostas, o presidente recorreu, como de hábito, à ofensa. Numa conversa com os devotos do cercadinho do Alvorada, insinuou que a jornalista trocara informações por favores sexuais. Processado, foi condenado em primeira instância a pagar indenização de R$ 20 mil por danos morais.

Bolsonaro recorreu, alegando inocência. A jornalista também recorreu, pedindo o aumento da reparação. Interrompido por um pedido de vista, o julgamento será retomado com um placar de 2 a 1 a favor de Patrícia. Dois magistrados ainda precisam votar.

Desde que Bolsonaro chegou à Presidência, os repórteres de política viraram correspondentes de guerra em seu próprio país. Trabalham num campo de batalha, sob permanente bombardeio do presidente da República.

Patrícia Campos Mello ousou levar a guerra aos tribunais. Os magistrados precisam informar de que lado estão. Não estão julgando apenas uma pendência entre a jornalista e o presidente. Julgam o próprio Tribunal de Justiça. No limite, decidem que tipo de democracia o Brasil deseja ser.

- Atualização feita às 14h59 desta quarta-feira (29/06): Por 4 votos a 1, a 8ª Câmara de Direito Privado do TJ-SP manteve a condenação de Bolsonaro. Elevou a indenização a ser paga à jornalista Patrícia Campos Mello para R$ 35 mil. Alvíssaras!