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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Ele nunca precisou me bater', diz Zero Quatro após criticar Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/07/2022 16h15

Campanha eleitoral é um período mágico. Mas Bolsonaro exagera. Dias depois de aparecer numa propaganda partidária do PL exaltando a família e aconselhando um grupo de adolescentes a "ouvir os pais", o presidente teve o ilusionismo exposto por seu filho Zero Quatro. "Minha mãe me bate e ele [Bolsonaro] faz terror psicológico", declarou Jair Renan num podcast. Autoconvertido em fornecedor de matéria-prima para a oposição, o filho do capitão passou o final de semana tentando consertar o estrago.

No sábado, postou um vídeo nas redes sociais. Nele, culpou a "mídia lixo" pelos danos que suas declarações produziram à imagem pessoal e de sua família. Amenizou as surras da mãe, Ana Cristina Valle: "Me dava umas porradinhas." E atenuou a tortura psicológica do pai: "Ele falava palavras duras comigo". Coisa de "militar". Relativizou: "Ele nunca precisou me bater". No domingo, Jair Renan postou uma selfie tirada na mesa de almoço. Bolsonaro, cenho crispado, aparece ao fundo com uma cara de quem disse "palavras duras" ao filho.

Na propaganda do PL, Bolsonaro recitou o lugar-comum segundo o qual "a família é a base de tudo". Ironicamente, o capitão transformou a família num puxadinho dos cofres públicos. Elegeu três filhos e fundou a holding da rachadinha. Entre ex-mulheres, fantasmas e laranjas —uns parentes dos outros— a organização familiar empregou mais de uma centena de pessoas, das quais eram extorquidos até 80% dos salários, para compor o patrimônio familiar.

Ana Cristina Valle, a mãe de Jair Renan, foi uma das funcionárias da holding familiar. Hoje, mora numa mansão brasiliense na companhia do filho. Sem mandato, o Zero Quatro percorre a conjuntura como um escândalo esperando para acontecer. No momento, é investigado num caso de tráfico de influência. Abriu portas para o interesse privado na Esplanada. Fica evidente que as "porradinhas" e as "palavras duras" não surtiram efeito. Em certos casos, quem sai aos seus não endireita.