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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro não dá à nova chefe da Caixa autonomia nem para escolher a caneta

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/07/2022 14h09

Desde que foi escolhida para substituir Pedro Guimarães na presidência da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques adotou um comportamento irretocável. Condenou o crime de assédio sexual em timbre categórico, prometeu investigar o antecessor com rigor, afastou suspeitos de cumplicidade e abriu canal direto para ouvir mulheres que queiram fazer denúncias. Prontificou-se a virar a página do escândalo. Soou como se dispusesse de carta branca de Bolsonaro. Na cerimônia de posse, o presidente cuidou de demonstrar que a nova chefe da Caixa não tem autonomia nem para escolher uma caneta.

Com a delicadeza de um elefante, Bolsonaro agarrou o braço de Daniella no instante em que ela assinava o ato de posse. Arrancou-lhe a caneta da mão, entregando-lhe uma esferográfica Bic. O gesto resumiu à perfeição o sentido da posse. Daniella, novamente, fez um discurso adequado. Mas Bolsonaro conspirou para converter o acerto no processo de substituição no comando da Caixa num grande equívoco.

O presidente converteu a cerimônica de posse em mais um comício reles. Reiterou todas as suas obsessões. Atacou a Justiça Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal. Cuspiu nas urnas eletrônicas que pelas quais se elegeu. Não disse uma mísera palavra de solidariedade às mulheres aviltadas na Caixa. Tampouco condenou os crimes de assédio sexual e moral atribuídos a Pedro Guimarães, um bolsonarista de mostruário.

Como se tudo isso fosse pouco, Bolsonaro cuidou de atenuar a importância da chegada de Daniella Marques. "Não começa uma nova era aqui na Caixa, a Caixa continua." Não fosse a necessidade de Bolsonaro de acenar para o eleitorado feminino, majoritariamente avesso à sua candidatura, Pedro Guimarães continuaria presidindo a Caixa e frequentando as lives presidenciais. Ao premiar Guimarães com o seu silêncio, Bolsonaro como que coloca a cara no fogo pelo ex-subordinado.