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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Era só o que faltava: cargos de embaixador no balcão da baixa política

Senador Davi Alcolumbre. Foto: Agência Senado - Senador Davi Alcolumbre. Foto: Agência Senado
Senador Davi Alcolumbre. Foto: Agência Senado Imagem: Senador Davi Alcolumbre. Foto: Agência Senado
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/07/2022 18h35

O senador Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, decidiu pautar na sessão desta quarta-feira uma proposta de emenda constitucional de sua autoria. Autoriza parlamentar a ocupar o cargo de embaixador do Brasil em países estrangeiros sem a necessidade de renunciar ao mandato.

Ao justificar a alteração constitucional, Alcolumbre alegou que a novidade eliminaria uma "discriminação odiosa" contra os congressistas. Argumenta-se que, se um parlamentar pode ser nomeado ministro das Relações Exteriores, também pode virar embaixador. A coisa só não foi votada porque dois senadores —Humberto Costa e Carlos Portinho— pediram vista, obtendo mais tempo para analisar a matéria. O tema voltará à pauta na semana que vem. A proposta é descarada, desconexa, desrespeitosa e desalentadora.

O descaramento de Alcolumbre, ex-presidente do Senado, fica evidente no desejo incontido de criar para os parlamentares mais uma boquinha. É possível antever o centrão exigindo que o Planalto leve ao balcão as embaixadas do circuito Elizabeth Arden: Paris, Roma, Londres, Washington...

A desconexão impede o senador de perceber a balbúrdia hierárquica que resultaria da submissão de embaixadores com mandato a um ministro de carreira. Quem daria as ordens, o chanceler ou o subordinado parlamentar?

Haveria um duplo desrespeito. Seria desrespeitado primeiro o eleitor, que vota num candidato no pressuposto de que o eleito irá guerrear pelos seus interesses em Brasília, e não refugiar-se numa confortável trincheira internacional.

Seriam afrontados também os diplomatas profissionais, que ralam uma vida inteira para chegar, no auge da carreira, à chefia de missões diplomáticas no estrangeiro. Iria para as cucuias a boa fama internacional da política externa brasileira, já bem comprometida sob Bolsonaro, um presidente que trocou a relação entre Estados pelo personalismo ideológico.

A proposta de Alcolumbre provoca desalento porque reforça a convicção de que o absurdo ganhou no Parlamento uma admirável naturalidade. Encontra-se de tudo no Congresso, de código de barras a privilégios. Faltam apenas duas coisas à maioria dos parlamentares: senso de ridículo e uma noção qualquer de interesse público.