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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro ainda não alcançou Lula, mas já ultrapassou Dilma Rousseff

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/07/2022 11h31

Eleito com a promessa de promover uma vigorosa reforma fiscal, Bolsonaro passou os últimos três anos e meio conspirando contra a pauta liberal de Paulo Guedes, seu ministro da Economia. Produziu uma ruína que anulou a única transformação relevante levada à vitrine: a reforma da Previdência, aprovada à sua revelia no primeiro ano do mandato. Agora, Bolsonaro manuseia uma agenda populista de candidato que não cabe no caixa do Tesouro Nacional. Ainda não alcançou Lula nas pesquisas, mas já ultrapassou Dilma Rousseff em irresponsabilidade fiscal.

Bolsonaro promove uma gastança a descoberto que transforma o ciclismo fiscal de Dilma num velocípede. A diferença é que o capitão faz do Congresso cúmplice de suas pedaladas. Ajeita a legislação às suas conveniências, fugindo de punições futuras. Bolsonaro deu um nó oposição. Utilizando a fome como álibi, fabricou um estado de emergência para arrancar do Legislativo o aval que o levará a despejar sobre uma conjuntura eleitoral adversa mais de R$ 40 bilhões em benesses sociais.

Mal comparando, Bolsonaro utilizou a mesma tática dos bandidos que assaltam cidades do interior nas incursões batizadas de novo cangaço. Para inibir a repressão policial, os neocangaceiros utilizam moradores das cidades como reféns. Bolsonaro invade os cofres do Tesouro usando o brasileiro pobre como escudo humano. A pretexto de socorrer os famintos, toda a oposição, inclusive o PT, se vê na contingência de votar a favor das medidas que têm potencial para levar o seu principal rival até o segundo turno da corrida presidencial.

Em fevereiro do ano passado, quando Bolsonaro promoveu sua primeira intervenção na presidência da Petrobras, afastando Roberto Castello Branco, afilhado de Paulo Guedes, o economista Paulo Uebel, que havia desembarcado do Ministério da Economia silenciando os seus rancores, disse que "nunca o governo Bolsonaro foi tão parecido com o governo Dilma."

Ex-secretário de Desburocratização, Uebel escreveu numa rede social que o ex-ministro petista da Fazenda "Guido Mantega faria absolutamente o mesmo que Paulo Guedes está fazendo." Ex-superministro, Guedes tornou-se uma espécie de estafeta do centrão.

Hoje, a Petrobras convive com seu quatro presidente. E a alta do petróleo serve de pretexto para o estado ficcional de emergência que dá a Bolsonaro munição eleitoral e uma aparência de Dilmo.