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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro submete militares a papel de vira-latas

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/08/2022 09h38

O penúltimo movimento executado no Tribunal Superior Eleitoral pelo general Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa, revela que as Forças Armadas não se negam ao ridículo voluntário para ajudar Bolsonaro a avacalhar o sistema eleitoral. Assumindo oficialmente a condição de boneco de um ventríloquo golpista, o general requisitou por escrito ao TSE, em caráter "urgentíssimo", acesso os códigos-fonte das urnas eletrônicas. Algo que estava disponível há dez meses, desde 4 de outubro de 2021.

Com a rapidez de um raio, o TSE autorizou a pasta da Defesa a realizar a pretendida inspeção nesta quarta-feira, no intervalo entre 10h e 18h. Sete entidades já haviam formalizado a mesma requisição. Quatro já realizaram a análise dos dados: Controladoria-Geral da União, Ministério Público Federal, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Senado Federal.

Mal comparando, a submissão do Ministério da Defesa à obsessão de Bolsonaro deixa as Forças Armadas numa posição parecida com a dos vira-latas que costumavam perseguir automóveis nas ruas, latindo como se quisessem castigar estraçalhar um intruso. Quem assistia às perseguições ficava imaginando o que fariam os cães se alcançassem os carros. Mastigariam os pneus? Comeriam os para-choques?

Bolsonaro não tem nenhuma dúvida. Seu propósito é o de desqualificar as urnas para questionar o resultado de uma eventual derrota. O diabo é que a urna eletrônica, que funciona sem fraudes há 26 anos, não se parece com um fusca indefeso. Autorizados a acessar os códigos-fonte, os militares precisam decidir até onde estão dispostos a levar sua autodesmoralização. O papel de vira-latas a serviço de um presidente que rosna a esmo para a democracia não é aceitável.