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Josmar Jozino

SP: Preso russo é tido como maior traficante de animais silvestres do mundo

Divulgação/PF
Imagem: Divulgação/PF
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

20/07/2021 04h00

Apontado pela Interpol (Polícia Internacional) como o maior traficante de animais silvestres do mundo, o russo Kirill Sergeevich Kravchenko completou 36 anos no último dia 5 em uma cela superlotada sem colchões no CDP 3 (Centro de Detenção Provisória de Pinheiros), na zona oeste de São Paulo.

Kravchenko não teve motivo para comemorar o aniversário. Na mesma semana a 1ª Vara Federal de Guarulhos aceitou a denúncia oferecida contra ele pelo procurador da República Guilherme Rocha Gopfert, do MPF (Ministério Público Federal).

O russo tornou-se réu no processo. É acusado pelos seguintes crimes: tentativa de contrabando de animais; maus-tratos; perigo para a vida ou saúde de outrem; receptação; caça profissional de animais silvestres; expor à venda animais silvestres e organização criminosa. Em caso de condenação, as penas somadas variam de seis anos e três meses a 20 anos de reclusão.

A Polícia Federal brasileira recebeu um sinal de alerta contra Kravchenko em 1º de maio de 2017, quando ele desembarcou no aeroporto de Amsterdã, na Holanda, em um voo procedente do aeroporto internacional de Guarulhos. Nas bagagens dele foram apreendidos dezenas de lagartos, cobras, sapos e baratas.

Um inquérito foi aberto pela PF em 24 de novembro de 2017. Quase quatro anos depois, em 5 de janeiro de 2021, o russo desembarcou mais uma vez no aeroporto de Guarulhos. Agentes federais não o prenderam, mas o monitoraram.

Viagens pelo Brasil

As investigações apontaram que Kravchenko alugou veículos e viajou para regiões do interior de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ele se hospedava em hotéis e pensões e pagava as diárias com cartões de crédito. Em outras ocasiões, o russo foi até para Cuiabá, no Mato Grosso.

Além dos federais, agentes do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais) também monitoraram os passos do russo. No dia 20 de janeiro, ele tentou embarcar no aeroporto de Guarulhos. O destino seria San Petesburg, na Rússia, via Istambul, na Turquia.

Os policiais federais o abordaram durante o chek-in. Dessa vez foram apreendidos nas bagagens de Kravchenko 294 animais da fauna silvestre brasileira. Eram 87 anfíbios, 61 répteis - a maioria lagartos - e 146 invertebrados, boa parte deles aranhas, baratas e piolhos-de-cobra.

Levado à Delegacia da Polícia Federal em Guarulhos, o russo assinou um termo circunstanciado. Ele não ficou preso. Mas teve o passaporte e o telefone celular apreendidos. Os animais silvestres foram encaminhados para o Instituto Butantan.

Kravchenko sabia que mesmo com o passaporte apreendido, ele teria chance de sair do país. E foi isso que tentou fazer em 17 de junho. Ele estava hospedado em um hotel no centro do Rio de Janeiro. Só não tinha conhecimento de que continuava monitorado e era até fotografado.

Os agentes apuraram que ele havia comprado uma passagem de ônibus para Foz do Iguaçu, no Paraná. O alvo foi para a Rodoviária Novo Rio e embarcou ao meio-dia. Segundo a Polícia Federal, a ideia do russo era deixar o Brasil cruzando a fronteira com o Paraguai.

No km 78 da rodovia Presidente Dutra, no município de Seropédica, pista sentido Rio-São Paulo, o ônibus foi interceptado. Nas malas de Kravchenko havia 320 animais silvestres. Eram sapos, pererecas, aranhas, lagartos, barbeiros, larvas, escorpiões, besouros, aranhas e bicho folha.

O traficante de animais foi mais uma vez autuado em flagrante e depois encaminhado para a carceragem da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Dias depois acabou removido para o superlotado CDP 3 de Pinheiros. A unidade tem capacidade para 572 detentos, mas abriga 1.136, praticamente o dobro. No último sábado (17), ele foi transferido para a Penitenciária de Itaí (SP), destinada a estrangeiros.

No dia em que foi preso, o russo portava seis cartões de crédito e outro telefone celular. Para a Polícia Federal, Kravchenko integrava a maior organização mundial de tráfico de animais e as suspeitas são de que alguém no exterior lhe dava suporte financeiro, já que não pagava as despesas no Brasil com dinheiro, mas só com cartões.

Uma das pessoas apontadas como suspeita é Ekaterina Burukhine, 32, mulher de Kravchenko. O casal viajou junto para o Brasil em 12 de novembro de 2015. Ela voltou sozinha para a Rússia em 22 de novembro daquele ano e ele, uma semana depois.

No período de 2 a 17 de março deste ano, Ekaterina esteve no Brasil novamente. Segundo a PF ela veio provavelmente para visitar o marido, que estava impedido de deixar o país.

Ekaterina teve um relacionamento anterior com o youtuber Arslan Valeev, 31, também russo de San Peterburg. Em setembro de 2017, ele deixou ser picado por uma mamba negra, cobra venenosa. O episódio foi transmitido ao vivo e teve grande repercussão mundial.

Valeev não resistiu à picada. Para policiais russos, o youtuber cometeu suicídio porque estava com o coração partido. Ekaterina havia terminado o romance com ele. Valeev chegou a denunciar ela e Kravchenko por tráfico internacional de animais silvestres.

A Interpol acredita que Kravchenko já agiu em vários países de todos os continentes. Nos celulares dele apreendidos pela PF havia mensagens sobre comércio de animais silvestres com pessoas da Espanha, Alemanha, República Tcheca, Egito, África do Sul, Namíbia, Equador, Argentina, Panamá, México, Japão, Vietnã, Indonésia, Austrália e Nova Zelândia.

*Colaborou Carolina Trevisan,