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Josmar Jozino

PF não tem pista de megatraficante solto pela Justiça por causa da covid-19

Divulgação/Pixabay
Imagem: Divulgação/Pixabay
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

31/07/2021 04h00

Em 21 de julho de 2020, quando assinou o alvará de soltura na Penitenciária 1 de Mirandópolis (SP) para cumprir prisão domiciliar, o megatraficante Suaélio Martins Lleda, 56, prometeu ir direto para seu apartamento, no 11º andar de um condomínio na praia do Gonzaga, em Santos. Ele é ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital), maior facção criminosa do país.

Suaélio não cumpriu a palavra e, segundo a Divisão de Capturas da Polícia Civil de São Paulo, nunca foi visto no edifício. Ele está foragido há um ano e é caçado também pela Polícia Federal. As suspeitas são de que esteja refugiado na Bolívia ao lado de outros narcotraficantes brasileiros.

Condenado a 41 anos por tráfico de drogas, associação para o tráfico e falsidade ideológica, o criminoso foi solto por determinação do desembargador França Carvalho, da 13ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Decisão monocrática

Em decisão monocrática, o desembargador havia autorizado Suaélio a cumprir prisão domiliciar, até o julgamento de um habeas corpus, porque advogados do preso alegaram que ele era portador de hipertensão arterial sistêmica e do grupo de risco para covid-19.

O Ministério Público Estadual recorreu da decisão. No dia 27 de julho de 2020, a 13ª Câmara de Direito Criminal cassou a liminar e mandou expedir um novo mandado de prisão contra Suaélio. Porém, já era tarde. O narcotraficante havia fugido.

No pedido de liminar, os advogados do presidiário sustentaram que a vida dele corria risco "por causa das péssimas condições de higiene e habitação do presídio e também pelo parco atendimento médico dispensado aos encarcerados".

Os defensores também alegaram que a Penitenciária 1 de Mirandópolis, com capacidade para 1.244 presos, abrigava à época 2.221. Na avaliação dos advogados, a superlotação na unidade era mais um risco efetivo para o prisioneiro ser contaminado pelo coronavírus.

Quatro dias antes de assinar o alvará de soltura, o juiz Henrique de Castilho Jacinto, da Vara das Execuções Criminais de Araçatuba, responsável pela jurisdição de Mirandópolis, havia indeferido o pedido de prisão domiciliar, argumentando que Suaélio recebia tratamento médico adequado na prisão.

Muitas posses

Segundo o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) de Presidente Prudente, Suaélio é um dos criminosos com maior poder aquisitivo e isso pode dificultar a recaptura do foragido.

O narcotraficante estava preso desde 2014, quando foi deflagrada a Operação Oversea, desencadeada pela Polícia Federal. As investigações apontaram que ele chefiava uma quadrilha responsável pela exportação de toneladas de drogas mensais para a Europa via porto de Santos.

Suaélio também era investigado por lavagem de dinheiro e por manter ligações com doleiros, um deles envolvido na Operação Lava Jato. De acordo com a PF, o narcotraficante adquiriu vários imóveis, inclusive um sítio de alto padrão em Mogi das Cruzes (SP).

Agentes federais fotografaram a propriedade durante as investigações da Operação Oversea. As fotos divulgadas na ocasião pelos policiais mostram quadra de tênis e de futebol, piscina, deck, jardim ornamental e até um lago natural.

Além de Suaélio foram condenados na Operação Oversea os narcotraficantes André Oliveira Macedo, o André do Rap; Moacir Levi Correia, o Bi da Baixada; e Anderson Lacerda Pereira, o Gordo. Todos acabaram soltos, mas tiveram a liberdade cassada e continuam foragidos.

Lincoln Gakiya acredita que os quatro narcotraficantes, todos ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior facção criminosa do Brasil, estejam escondidos em regiões de montanha na Bolívia sob a proteção de militares corruptos daquele país.