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Josmar Jozino

PCC bancou treinamento de guerra para ladrões do novo cangaço, diz promotor

Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

05/09/2021 07h00

Até o ano de 2002, integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) mal sabiam utilizar uma granada.

Passados quase 20 anos, ladrões de bancos ligados à facção criminosa — a maioria de altíssima periculosidade — se especializaram no uso de explosivos e fabricação de bombas.

Esses assaltantes com expertise no manuseio de artefatos já são chamados por setores das forças de segurança de "explosivistas". Eles aprenderam inclusive a manipular explosivos de última geração, acionando as bombas à distância, com controle remoto.

Foi o que aconteceu no último dia 30 em Araçatuba (SP), em uma das ações mais violentas, classificada de terrorista, protagonizada por um dos braços do "novo cangaço", como são chamados os bandos que explodem agências bancárias em todo o país para roubar milhões de reais de bancos federais.

Autoridades e especialistas em segurança pública estão temerosos e preocupados com o conhecimento bélico dessas quadrilhas.

Ladrões recebem treinamento de mercenários

Para o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de Presidente Prudente, esses ladrões recebem há décadas treinamentos de guerra de mercenários das Forças Armadas da Bolívia e Paraguai, todos financiados pelo PCC, em propriedades da facção naqueles países.

Na opinião de Gakiya, um dos maiores especialistas no combate às ações do PCC, não dá para dizer que a facção esteja por trás desses assaltos do "novo cangaço", mas é possível afirmar que a organização fornece armamento, como metralhadora calibre 50 e oferece cursos de treinamentos militares.

No roubo de Araçatuba, os criminosos estavam em posse de 170 kg de explosivos. Ao menos 100 kg foram colocados estrategicamente nas agências atacadas e também nas ruas para impedir a presença policial. O restante foi apreendido em um caminhão e detonado pelo Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), da Polícia Militar de São Paulo.

O bando ainda usou drones, modernos fuzis e metralhadoras e agiu com táticas militares. Imagens de câmeras de segurança da cidade mostraram ladrões com roupas camufladas, coletes à prova de bala, capacete semelhante aos de tropas do Exército e também balaclavas.

PCC do Distrito Federal

Um dos maiores temores de Lincoln Gakiya é de que esses assaltantes treinados por mercenários passem a atuar em outras ações terroristas e também em resgates de presos perigosos em cidades do interior de São Paulo e do país onde há pouco policiamento.

Segundo Gakiya, dois ladrões presos na ação de Araçatuba são do PCC de Brasília - onde parte da alta cúpula da liderança da facção está recolhida - e contra eles já havia mandados de prisão expedidos pela Justiça do Distrito Federal. Um assaltante morto era do PCC de São Paulo.

Rafael Alcadipani, professor de gestão pública da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, também ficou impressionado e assustado com a ação dos "explosivistas" em Araçatuba. Na avaliação dele, é nítida a evolução do PCC no domínio da tecnologia e nos assaltos.

De acordo com Alcadipani, os criminosos mostraram um refinamento e alto grau de conhecimento no uso de explosivos. Para o professor da FGV, os integrantes dessas quadrilhas já devem ter repassado o "know how" para outros comparsas e precisam ser presos com urgência.

Em 2002, granadas eram novidades

Em meados de 2002, durante os primeiros ataques do PCC contra as forças de segurança em São Paulo, motivados pelo isolamento dos líderes da facção no CRP (Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente Bernardes), granadas eram novidades para integrantes do PCC.

Os integrantes da organização mal sabiam tirar o pino do equipamento. José Márcio Felício, um dos fundadores do PCC, deu a ordem para atacar prédios públicos e postos policiais. Um dos alvos era o Sifuspesp (Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo).

Quatro "soldados" do PCC, escolhidos a dedo por Geleião, não sabiam ler direito. Confundiram o Sifupesp, à época localizado na rua Doutor Zuquim, em Santana, zona norte, com o Iprem (Instituto de Previdência Municipal de São Paulo), na avenida Zaki Narchi, no Carandiru, perto do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), da Polícia Civil.

Os homens de confiança de Geleião tiveram dificuldade para manusear a granada e demoraram para tirar o pino dela. O artefato foi arremessado contra a sede do Iprem e caiu no jardim do instituto. A Polícia Civil informou na ocasião que ninguém ficou ferido.