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Josmar Jozino

Ex-agente condenado nega ter matado sequestrador da filha de Silvio Santos

Fernando Dutra Pinto, sequestrador da filha de Silvio Santos - Reprodução
Fernando Dutra Pinto, sequestrador da filha de Silvio Santos Imagem: Reprodução
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

25/11/2021 04h00

Em 10 de dezembro de 2001, Mateus Messias da Silva, agente penitenciário em estágio probatório, chefiava o plantão no CDP 2 (Centro de Detenção Provisória) do Belém, na zona leste de São Paulo. Por volta do meio-dia, ele recebeu uma denúncia sobre a existência de um túnel no Pavilhão 6.

Mateus e o colega de turno Antônio Carlos Rodrigues foram checar a informação. Durante inspeção na cela 52, os agentes descobriram o buraco. As escavações já haviam atingido a parte externa da muralha da unidade. Os presos do xadrez foram levados para o setor disciplinar.

Na cela ao lado, a de número 53, estava recolhido Fernando Dutra Pinto, 22, o sequestrador de Patrícia Abravanel, filha do empresário e apresentador de TV Sílvio Santos. Segundo investigações, o preso intercedeu para que um detento, colega dele, não fosse conduzido ao castigo.

Fernando e Mateus passaram a discutir e o preso também foi levado para o Pavilhão Disciplinar. Ambos começaram a trocar socos. O agente penitenciário sofreu uma fratura no polegar da mão direita. O sequestrador de Patrícia Abravanel morreu 23 dias depois.

silvio ii - Caio Guatelli/Folhapress - Caio Guatelli/Folhapress
30.08.2001 -- O apresentador Silvio Santos acompanha o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, até o portão de casa após ser libertado por Fernando Dutra Pinto, um dos sequestradores de Patrícia Abravanel, filha do dono do SBT.
Imagem: Caio Guatelli/Folhapress

Versões conflitantes

As versões sobre as circunstâncias da morte de Fernando são conflitantes. Para a Polícia Civil, Ministério Público e a Justiça, o sequestrador foi torturado e espancado com barras de ferro por Mateus, Antônio e outros agentes penitenciários encapuzados e até hoje não identificados.

O chefe do plantão e o colega Antônio foram condenados por tortura e pela morte de Fernando a nove anos e quatro meses e também perderam o cargo. Em primeira instância, ambos acabaram absolvidos. O Ministério Público recorreu da decisão e a condenação veio em segunda instância.

Mateus ficou preso dois anos e sete meses e foi solto em setembro deste ano. Quase 20 anos após a morte de Fernando, ele conversou com a coluna. Antes gravou entrevista para o audiodoc da Ubook "Silvio Santos - Sequestros, mortes e mistério", dos jornalistas Alexandre Freeland e Leandro Calixto.

O ex-agente, aos 46 anos, disse à coluna ser inocente. Ele admitiu ter trocado socos com o preso, mas alega que só se defendeu das agressões e depois foi à delegacia com Fernando e Antônio, onde foram ouvidos e levados ao IML (Instituto Médico Legal) para fazer exame de corpo de delito.

Segundo a versão de Mateus, Fernando não tinha lesões. O ex-agente contou que voltou para o CDP 2 do Belém com o preso e o colega. No final do expediente bateu o cartão de ponto, saiu em licença médica por 30 dias e não teve mais contato com o sequestrador.

abravanel - Reprodução/TV Bandeirantes - Reprodução/TV Bandeirantes
30.08.2001 -- Patrícia Abravanel, filha do dono do SBT, é retirada de casa por policiais junto com as irmãs e a mãe depois que seu sequestrador, Fernando Dutra Pinto, invadiu sua casa e fez seu pai de refém.
Imagem: Reprodução/TV Bandeirantes

As investigações concluíram que Fernando foi torturado com barras de ferro e ficou 10 dias isolado no setor disciplinar, tomando banho frio e enrolado em toalha molhada. Laudos apontaram que, por causa do espancamento, ele teve uma ferida nas costas que infeccionou e causou pneumonia.

Após ser torturado, Fernando foi levado para o departamento médico da unidade e liberado para retornar à cela disciplinar. Ele ficou sem atendimento e o quadro de saúde piorou. Em 29 de dezembro de 2001, queixou-se de febre, dores no peito e nas costas. Sentiu calafrios e dificuldade para respirar.

No dia seguinte, Fernando foi levado à enfermaria e mais uma vez não recebeu atendimento médico. No dia 1º de janeiro de 2002, o sequestrador foi removido para a Santa Casa. Porém, acabou liberado e voltou ao CDP com agulhas e mangueiras de soro aplicadas no braço. Ele morreu no dia 2 de janeiro.

Um médico do CDP foi condenado por negligência a um ano em regime aberto. Também foram condenados a um ano e dois meses em regime aberto um diretor de vigilância e um diretor técnico. Ambos foram acusados de presenciar a tortura e nada fazer para impedi-la. A pena deles prescreveu.

Pensou em suicídio

Acostumado a trancar os presos na cela, Mateus foi isolado, a princípio, em um xadrez no CDP de Caiuá (SP). Ele contou que nos três primeiros dias de prisão chorou, gritou e pensou em se enforcar com um lençol.

Acrescentou que foi vítima de injustiça e que jamais torturou Fernando. Ele lembrou do dia mais triste na prisão. Disse que foi quando recebeu a visita do filho único. O menino revelou, aos prantos, que tinha brigado na escola com um aluno que lhe disse: "sai pra lá seu filho de preso".

Mateus acrescentou que hoje está livre das grades, mas que ainda se sente preso. Ele começou a cumprir pena em 2018 e agora está em regime aberto. Afirmou que tenta se reerguer, não quer ficar estigmatizado como condenado e que vai brigar na justiça por uma revisão criminal.

Na avaliação de Mateus, ele e Antônio foram condenados e usados pela Justiça como bode expiatório, porque o crime cometido por Fernando teve repercussão e muita comoção e a sociedade precisava de uma resposta.

silvio - Evelson de Freitas/Folhapress - Evelson de Freitas/Folhapress
30.08.2001: Sílvio Santos acena para jornalistas de sua casa no bairro do Morumbi, em São Paulo (SP), após ficar de refém de Fernando Dutra Pinto, sequestrador de sua filha Patrícia Abravanel.
Imagem: Evelson de Freitas/Folhapress

Mortes e mistérios

A prisão de Fernando Dutra Pinto foi marcada como um dos casos mais polêmicos e misteriosos da literatura policial. Ele, o irmão dele Esdras e outros comparsas sequestraram Patrícia Abravanel em 21 de agosto de 2001 e exigiram R$ 2 milhões para libertá-la. Ela tinha 22 anos.

O bando concordou em reduzir o valor do resgate para R$ 500 mil. Patrícia foi solta em 28 de agosto. Fernando ficou com o dinheiro e dois dias depois estava escondido em um flat em Alphaville. Uma camareira viu armas e cédulas de reais no apartamento 1004, no 10º andar, e avisou a equipe de segurança.

Em vez de comunicar a delegacia da área, no caso a de Barueri, um dos chefes da vigilância do flat telefonou para um delegado amigo dele, titular do 91º DP (Ceasa). Este último mandou três policiais de confiança para o local.

A Polícia Civil informou à época, sem esclarecer detalhes, que houve intensa troca de tiros no flat. Os investigadores Marcos Amorim Bezerra e Paulo Tamotsu Tamaki morreram. O colega deles, Reginaldo Nardis, foi baleado e sobreviveu.

Fernando foi atingido por um tiro nas nádegas e, mesmo assim, como se fosse um "homem aranha", escalou 10 andares na parte externa do hotel até chegar ao térreo e fugiu.

Na madrugada de 30 de agosto, o sequestrador se escondeu em um terreno baldio ao lado da mansão de Silvio Santos. Pela manhã, ele conseguiu entrar na casa. Policiais disseram que Silvio Santos foi surpreendido quando fazia ginástica só de cueca.

O apresentador e as filhas foram feitos reféns. As mulheres acabaram liberadas minutos depois. A polícia foi acionada e houve intensa negociação. Silvio Santos só foi liberado após a chegada do então governador Geraldo Alckmin (PSDB). Essa foi a exigência do criminoso.

Fernando se entregou, foi algemado, colocado em uma viatura policial e conduzido para o CDP 2 do Belém.

O testemunho de um preso, relatando a tortura, e a ligação de um funcionário do CDP, avisando a advogada do detento, Maura Marques, que o cliente dela havia sido espancado, além de laudos e outras provas, foram decisivos para a condenação dos réus.