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Josmar Jozino

MS: Cerveja custava R$ 15 e fuga R$ 200 mil via pix em prisão de Ponta Porã

Bebidas alcóolicas apreendidas na Unidade Penal Ricardo Brandão, em Ponta Porã (MS), na fronteira com o Paraguai - Divulgação
Bebidas alcóolicas apreendidas na Unidade Penal Ricardo Brandão, em Ponta Porã (MS), na fronteira com o Paraguai Imagem: Divulgação
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

07/04/2022 04h00

Uma latinha de cerveja era vendida aos presos por R$ 15,00 na Unidade Penal Ricardo Brandão, em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, uma das cidades mais violentas do país, na fronteira com o Paraguai, onde há forte presença de integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Uma fuga custava até R$ 200 mil. A mudança para uma cela mais confortável, com frigobar, ventilador e móveis com prateleiras ficava em torno de R$ 6 mil, podendo ser paga em duas vezes. Já a ida para um pavilhão com regras menos rígidas não saía por menos de R$ 2 mil.

As irregularidades cometidas no presídio vieram à tona em 30 de junho do ano passado, quando foram apreendidos na unidade 1.930 latinhas de cerveja, 120 long necks, 13 litros de cachaça, três garrafas de vinho e uma de uísque.

Foram encontrados ainda um tablet, quatro telefones celulares, dois carregadores de celular, uma carteira com R$ 970,00, R$ 5.000,00; 5 mil guaranis (moeda paraguaia), uma faca, barras de ferro, perfumes e uma caixa de som.

Dois dias depois das apreensões foram registradas a fuga dos presos Celso Gonçalves Sanguina e Nédio Marques Brito Filho. Segundo investigações do Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) do Mato Grosso do Sul, os prisioneiros saíram pela porta da frente.

Cinco funcionários da unidade foram presos pelo Dracco em janeiro deste ano e, posteriormente, denunciados à Justiça pelos crimes de associação à organização criminosa, concussão (quando um funcionário público age com a finalidade de obter vantagem indevida para si ou terceiros) e corrupção passiva.

Os agentes acusados são um diretor do presídio, um chefe de disciplina, um chefe de segurança e dois chefes de equipe. Todos foram conduzidos para o Centro de Triagem de Campo Grande. Eles tiveram a prisão preventiva decretada. A Justiça aceitou a denúncia e marcou para o próximo dia 5 a oitiva de 26 testemunhas de acusação dos réus.

Presos foram ouvidos em inquérito policial e confirmaram que cada latinha de cerveja custava R$ 15,00. Segundo os relatos, alguns dos agentes preferiam receber o pagamento em dinheiro e outros concordavam com a transferência via Pix.

Em depoimento, um prisioneiro revelou que pagou R$ 7 mil para ser transferido para um pavilhão conhecido como "Mangueirão". Nesse setor, os detentos ficam fora da cela durante o horário de almoço e até as 20h, mesmo com o expediente administrativo sendo encerrado às 16h30 na unidade.

De acordo com apurações do Dracco, nos demais pavilhões, os presidiários são trancados durante o horário do almoço, ou seja, das 11h às 13h, e depois são recolhidos às celas às 17h. Por isso muitos pagaram pela transferência para o "Mangueirão".

Outro prisioneiro contou em depoimento que pagou R$ 4 mil para ser removido para o "Mangueirão", sendo R$ 3 mil em dinheiro e mais R$ 1 mil trinta dias depois. O Dracco apurou que não havia um preço fixo e que o valor era cobrado circunstancialmente, dependendo do agente penal.

Para ser removido do pavilhão chamado de "Castelinho", onde as instalações - como celas e banheiro - são precárias, um preso teve de desembolsar R$ 10 mil. Segundo ele, um agente exigiu mais R$ 10 mil depois e como não tinha dinheiro, os amigos pagaram o restante.

Ainda de acordo com os relatos dos presos, a fuga de Celso e de Nédio custou à época US$ 30 mil ou R$ 200 mil. A repórter Aline dos Santos, do portal de notícias Campo Grande News, do Mato Grosso do Sul, publicou um trecho do depoimento de um detento, citando o valor, na edição de 31 de março.

Ponta Porã é uma cidade gêmea de Pedro Juan Caballero, bem na fronteira com o Paraguai. A região é considerada importante rota do tráfico de drogas. O lugar também é palco de chacinas, homicídios e conflitos sangrentos entre facções criminosas em disputa pelo controle do território.